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Congresso apresenta na teoria e na prática modelos de escolas democráticas
Congresso apresenta na teoria e na prática modelos de escolas democráticas
Juliana Rocha Barroso 25/4/2006 Na quinta edição, o Congresso Internacional de Educação promoveu o debate "Uma escola para cidadãos", no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, no dia 11 de abril. Reuniu cerca de oito mil profissionais da educação, entre professores, coordenadores pedagógicos, gestores de escolas, autoridades e acadêmicos. A edição 2007 foi dividida entre São Paulo e Rio de Janeiro, que acontecerá no dia 2 de maio. A proposta do congresso é incentivar a reflexão sobre o papel da escola na construção e na propagação de valores e atitudes para uma convivência social responsável e solidária. Iniciativa da Fundação Santillana e da Editora Moderna, conta com a parceria das secretarias da educação dos governos estaduais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Nesse ano, recebe o apoio da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), da Unesco, e das editoras Salamandra e Objetiva. A mesa redonda "Escolas Transformadoras: rumo à construção de espaços" abordou os trabalhos na capital paulista. O moderador, Ezequiel Theodoro da Silva, presidente da Associação de Leitura do Brasil e ex-secretário de Educação e Cultura do Município de Campinas, abriu o debate destacando que a mesa, ao apresentar prática e teoria da educação democrática, traz à tona o comprometimento, a liberdade e o sonho que todos os educadores têm. "Espero que esta mesa traga também a inquietação e indignação, já que o tripé do trabalho do educador é conhecimento, ética e justiça social." Um dos convidados da mesa, o rapper carioca MV Bill, não compareceu, mas enviou um vídeo que gravou na Cidade de Deus, em que se desculpou pela ausência, pois, no dia seguinte, recebeu, em Madri, o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha pelo documentário "Falcão – Meninos do Tráfico", considerado o melhor programa de televisão de 2006. "Lido com educação a todo o instante na Central Única da Favela (CUFA), na Cidade de Deus. Não temos a intenção de substituir a escola, mas acreditamos que a educação é a forma de combater a violência", diz MV Bill, cujo repertório é marcado pela denúncia social e política. Ele aponta questões que discutiria caso estivesse presente como de que forma os professores podem ser mais participativos na mudança, na prevenção e pela educação. Fala sobre a maioridade penal. "Não se fala de melhores lugares de internação, o que fazer com que jovens que já nascem condenados. Só se fala em fazer novas leis, ao invés de fazer as que existem funcionarem, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, por exemplo." O rapper diz entender os educadores, especialmente pela forma como são tratados no Brasil, mas instiga os presentes, pedindo que levante as mãos quem souber quando se comemora o Dia da Educação (28 de abril). Poucos levantaram. Ainda no vídeo, ele diz que pelos lugares onde passou apenas uma pessoa levantou. "Eu também não sabia até pouco tempo. Parei de estudar cedo e tenho vontade de voltar." No final do vídeo, ressalta a importância da troca de experiências entre a escola da vida e os educadores formais. Lugar de gente feliz Eda Luiz, coordenadora-geral do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos de Campo Limpo (CIEJA-CL), na zona Sul de São Paulo, relatou sua experiência. Desde 2002, ela exercita, na prática, o modelo de escola democrática. "Sempre me incomodei com o fato da Educação de Jovens e Adultos – EJA – ser vista e tratada como um apêndice da educação", observa Eda. Ela inicia sua explanação citando Paulo Freire: "Experiências não se transplantam, elas se reinventam". Conta que o CIEJA-CL nasceu em 1999 para atender a demanda de alunos excluídos, sem certificação, dificultando ainda mais o ingresso ou recolocação no mercado de trabalho. Em 2002, a sede da instituição mudou para o Campo Limpo, bairro conhecido por grandes índices de violência. "O desafio era proporcionar educação às camadas populares unindo forma, conteúdo, educação e democracia. Me encontrei com Paulo Freire, que me deixou mais estimulada a mudar", conta. A partir daí, o centro assumiu o conceito de escola aberta, mas tiveram dificuldades com o atendimento. "Para isso, criamos espaços polivalentes, onde, além de aulas, damos palestras e informamos os alunos. Sem chaves, sem portas, para desenvolver o respeito ao espaço e ao material comum." O sistema de ensino é modular. São quatro módulos que trabalham áreas de conhecimento através da metodologia de problematização, com a fusão de saberes vividos e acumulados. Entre elas, Ciências Humanas, Ciências da Natureza, Ciências Sociais, Linguagem e Códigos. De segunda à sexta, os alunos passam por aulas, oficinas, extra-classes, assembléias e combinados entre estas modalidades. "Cada um depende de todos e todos de cada um", diz Eda. Sobre os princípios da CIEJA-CL, ela aponta a solidariedade e o respeito; a sustentabilidade – através da geração de renda, da economia solidária e da reciclagem –; a criticidade – entender causas dos problemas e questionar o porquê de como está sendo feito o processo – e a criatividade. "Pensamos o currículo considerando as necessidades de todos. Todos são iguais, com capacidades iguais. Por isso, no CIEJA, todos ficam juntos, independente de idade, cor e mobilidade", destaca. Os professores do Centro pesquisam em cima da problematização e auxiliam os alunos, que são avaliados de múltiplas formas. Eles definem projetos a pesquisar e, depois, apresentam aos demais alunos. "É feita uma auto-avaliação com cada aluno, para que se perceba como produtor do seu conhecimento. Também temos um diário de bordo, com foco na avaliação da leitura e da escrita", conta Eda. O público-alvo do centro é formado de pessoas com necessidades especiais, jovens em liberdade assistida, pessoas em situação de rua, plantonistas, trabalhadores por turnos e adultos. Hoje são 1.342 alunos, 146 deles portadores de deficiência. E 50 funcionários. Todas as decisões são tomadas em assembléia. A grande placa na entrada do prédio do CIEJA resume bem os freqüentadores: "Lugar de gente feliz". Incentivo e motivação O eletricista Erpídio dos Santos, 41 anos, assistia à apresentação da mesa. Seu envolvimento com as palavras de Eda era maior, afinal, desde fevereiro deste ano ele é aluno do CIEJA-CL. A volta aos bancos escolares foi exigência da empresa de ônibus em que trabalha. Erpídeo mora no Vale Velho, próximo ao CIEJA, e aprovou a metodologia do Centro por ser diferente das demais escolas. Já concluiu o primeiro dos módulos. "Aprendemos em cima do que queremos, não vejo discussão. Outra coisa importante é a companhia das pessoas, ter alguém para conversar, respeitar a maneira de ser de cada um. Isso também é uma forma de aprendizado", revela. O paranaense Erpídio vive há 25 anos em São Paulo. Na cidade natal fez as 1ª e 2ª séries, depois, aos 19 anos, fez a 5ª série. Já na capital paulista, voltou à escola aos 23 anos, na 6ª série, mas só ficou um mês. "O ritmo era muito puxado para mim, que trabalhava e estudava", conta. Hoje, ele continua com a jornada dupla, pois estuda no turno das 20h15 às 22h30 do CIEJA. Ele acredita que em um ano terá passado por todos os módulos. O eletricista fala sobre o Piso Azul, nome dado a um espaço do CIEJA-CL dedicado às assembléias e às apresentações de projetos de alunos. "Todos temos medo do Piso Azul, porque não fomos acostumados a falar em público, a expor nossas idéias, a nos posicionarmos. Você vai aprendendo a deixar de ter medo de errar. O erro de hoje faz o acerto de amanhã." A turma de Erpídeo tem cerca de 45 alunos, que se dividem em grupos de trabalho. "Hoje vejo o erro que cometi lá atrás, de não ter estudado. O que aprendemos ajuda muito no trabalho, mas é principalmente para a vida." Além das motivações profissionais, ele tem uma mais forte: o filho de 13 anos. "Ele precisa de mim, tenho que ser modelo, exemplo e servir de incentivo para que ele entenda a importância do estudo", confessa. Uma proposta centenária e para o mundo Dando seqüência à mesa redonda, Helena Singer, pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretora do Instituto para Democratização da Educação no Brasil (IDEB), apresentou um vídeo sobre a educação democrática. A socióloga estuda há anos o tema e foi responsável por apresentar seus avanços teóricos. "Há 15 anos, quem falava em aquecimento global era considerado louco. Na mesma época, comecei a estudar as escolas democráticas e pensei a mesma coisa. Hoje é uma realidade. É possível ter uma mesa como esta num congresso internacional de Educação", diz. Ela lembra que, em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) possibilitou mudanças. "Começou a ser possível fazer a escola democrática no Brasil. Cada escola pode escolher sua maneira de trabalhar. Acreditava-se que isso era coisa para países ricos ou para pessoas ricas." Para a pesquisadora, esta realidade é outra devido, primeiro, à revolução tecnológica. "Ela mudou a idéia de que conhecimento se acumula. Não é mais necessário acumular, mas, sim, navegar no conhecimento. Saber usa as informações." Outro fator é a teoria contemporânea sobre o aprendizado. "O movimento é um aspecto importante da Educação Democrática. Se eu ouço, esqueço. Se vejo, lembro. Se faço, eu aprendo", explica. Helena coloca como terceiro responsável a educação para uma sociedade solidária. "É necessário fazer, não apenas guardar." Como aspectos da Educação Democrática, a socióloga aponta a própria Democracia, que se dá na gestão, através das assembléias, em que o bem-estar comum é o que vale, no conhecimento, com múltiplas facetas, e na aprendizagem com respeito aos ritmos e interesses. "Os grupos se formam naturalmente, por interesses em comum. Não é preciso agrupar. É como ter em escola um sinônimo de comunidade democrática." Como exemplo, Helena fala do próprio CIEJA-CL: "Eda foi modesta ao dizer que tem 1.342 alunos, sendo 146 deles incluídos. Pela abertura, flexibilidade e pelo acolhimento desta escola, todos os 1.342 são incluídos". Para finalizar sua apresentação, a pesquisadora aponta o histórico da Educação Democrática. "Ela é uma proposta centenária. Tem a escola Yásnaia-Poliana, dirigida por Leon Tolstoi, entre 1857 e 1860, na Rússia, para filhos de camponeses. O Lar das Crianças, fundado e dirigido por Janusz Korczak, de 1912 a 1942, na Polônia, para crianças órfãs. Neill, Freinet, Makarenko...", cita. Além de antiga, Helena defende que é uma proposta para o mundo. "Temos exemplos de escolas públicas em Israel, Portugal e Guatemala. Escolas particulares na América do Norte e na Europa. Cooperativas de pais e educadores nos países nórdicos. Escolas, EJAs e projetos de educação não-formal na Tailândia, na Índia, na África e no Brasil." E ressalta: "A escola democrática não é um modelo pronto, mas os princípios que a norteiam são os mesmos em qualquer lugar e época: igualdade, liberdade, solidariedade e fraternidade". O moderador, Ezequiel Theodoro da Silva, encerra os trabalhos do Congresso em São Paulo, destacando o trabalho do professor, um trabalho de dedicação, que demonstra que olhar para o outro nos faz ser gente. "Hoje, 1/3 da população deste País está envolvida diretamente com a educação. Somos espelhos sociais e é fundamental que nos sintamos importantes e necessários neste trabalho social." Para concluir, Ezequiel deixa uma frase de Manuel de Barros para reflexão: "O que eu sinto é aquilo que me falta". Serviço: V Congresso Internacional de Educação São Paulo: 11 de abril Rio de Janeiro: 2 de maio 0800-2822266 Informações e material apresentado no Congrresso: www.congressomoderna.com.br CIEJA-CL Rua Cabo Estácio da Conceição, 176 Parque Maria Helena (11) 5816-3701 Instituto para Democratização da Educação no Brasil (IDEB) Rua Lincoln Albuquerque, 328 Perdizes publicação original - http://www.setor3.com.br/senac2/calandra.nsf/0/2A50909AD91370C9832572C7006C3ADC?OpenDocument&pub=T&proj=Setor3&sec=Reporter+S3
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