Democratização da Educação

Democratização da educação: "O principal papel da escola é aumentar o repertório da criança", diz Helena Singer

22/10/2008

Mestre e doutora em Sociologia pela USP e pós-doutorada pela Faculdade de Educação da Unicamp, Helena Singer é uma das poucas no Brasil a levantar a bandeira da gestão democrática nas escolas. Diretora Pedagógica da Cidade Escola Aprendiz, foi também uma das fundadoras da Escola e do Instituto Lumiar, em São Paulo, e pesquisadora da Universidade da Pensilvania (Upenn) e do Núcleo de Estudos da Violência da USP. Em 2009, iniciará as atividades da escola Politeia, cuja estrutura se pauta em um modelo de gestão democrática. Nesta entrevista ao site do Projeto Criança e Consumo, Helena fala da necessidade de transformar a cultura institucional de modelos ultrapassados de gestão e avaliação.

Como se dá a democratização da educação?

Ela se dá com uma gestão de vivência e prática democrática. Dessa maneira, o principal órgão gestor é uma assembléia de alunos, professores e pais na qual se discute frequentemente todas as questões de interesse da escola. As decisões da assembléia são encaminhadas para as comissões, que avaliam como implementar as ações. É diferente do que observamos na maioria das escolas e, no Brasil, são poucas as instituições que adotam esse modelo. No entanto, já há um entendimento de que é preciso ouvir e dar voz aos alunos. Essa consciência vem crescendo. Muitas das escolas mais tradicionais, embora não tenham uma gestão democrática, estimulam a formação de comissões por turmas, nas quais se discute não questões curriculares ou administrativas mas questões disciplinares.

O bullying tem crescido assustadoramente nas escolas. Na sua avaliação, o que proporciona esse tipo de agressão no espaço educacional? Há uma relação com o tamanho das escolas?

Certamente. Tanto que nos EUA, depois daqueles epsódios trágicos de matança, foi criada uma lei que proíbe escolas muitos grandes. Se eu não me engano, não podem ter mais de 600 alunos. As escolas pequenas têm condições de tratar o aluno com mais humanidade. Ele deixa de ser um número na lista de chamada para ser alguém com nome e identidade. Isso muda completamente a relação que ele estabelece com colegas e professores, na qual há mais respeito e compreensão. Por exemplo, agrupar crianças por idade não faz sentido. Nem todas as pessoas de 28 anos sabem as mesmas coisas, por que isso seria diferente com crianças de 7 anos? Quando se agrupa por idade e uma criança é reprovada não há respeito pelo ritmo individual. É provável que essa criança sofra algum tipo de rejeição. Essa é uma das muitas situações que propiciam o bullying. As crianças reproduzem não só o que os adultos fazem como também o que o poder institucional faz. Hoje, grande parte das escolas e das pessoas hostiliza o que é diferente do padrão estabelecido. Em uma escola menor, os alunos são tratados na sua individualidade.

E a avaliação dos alunos, qual é a sua visão sobre o modelo adotado hoje de provas, exames e notas?

A avaliação precisa ser mais completa e cotidiana. Deve ser feita de um a um e contemplar um processo evolutivo. Isso se faz com muito contato individual e registro. O aluno mesmo deve perceber que ele está evoluindo. Para o professor, é muito mais fácil aplicar uma prova teste, mas essa prova não é capaz de avaliar conhecimento. Esse é o paradigma que a gente conhece e que o próprio governo propõe, com a instituição do Provão. As escolas tratam o conhecimento de forma medíocre.

Existem escolas que, inclusive, aplicam testes para candidatos…

Ah, sim, existem. Não para crianças pequenas, já que prova-teste para o ensino infantil é proibida no Brasil e as escolas que fazem isso, fazem ilegalmente. Os pais devem ter consciência da orientação pedagógica da escola que buscam para seus filhos. De nada adianta colocar uma criança numa escola tradicional e autoritária se em casa ela vivencia um ambiente democrático. Isso gera um conflito muito grande na criança, o que não é bom para o desenvolvimento saudável dela.

Alguns pesquisadores defendem a inclusão da mídia no currículo escolar. Qual é a sua avaliação a esse respeito?

Desconfio muito da inclusão de temas no currículo escolar. Acho que se exige a inclusão de uma série de questões que acabam não sendo tratadas de maneira adequada e não despertam o interesse da criança. Acho que a criança deve se relacionar com aspectos do mundo de forma verdadeira. Por exemplo, em uma gestão democrática, as crianças escolhem o almoço. Elas poderiam optar só por sanduíches, doces… Isso não acontece porque a escola leva outras informações que despertam o interesse do aluno por alimentos mais saudáveis. Então, leva-se a criança para conversar com um agricultor orgânico, com um nutricionista, etc. A partir daí, há um interesse maior por essas questões que se reflete nas decisões.

Qual é o papel da educação formal no combate ao consumismo?

O principal papel da escola é aumentar o repertório da criança. Não é demonizar a cultura de massa. É dar alternativas para que a criança possa fazer outras escolhas. Tratar a questão ambiental, por exemplo, é algo importante. Mostrar que o que você consome e a forma como consome tem impactos negativos no meio ambiente acaba desenvolvendo um senso crítico. Acho muito mais eficiente trabalhar dessa forma do que denunciar a propaganda.

É possível fazer uma gestão democrática no ensino público? No Brasil, as escolas devem cumprir algum tipo de exigência do Estado com relação a isso?

A legislação brasileira é extremamente avançada nesse sentido e permite que cada escola tenha sua proposta pedagógica. O que precisa ser feito é uma transformação na estrutura de poder. O poder não se adequou a essa nova legislação, que é do fim dos anos 90. Quando Paulo Freire foi secretário de Educação, deu muita força e autonomia para os conselhos das escolas públicas. O poder público pode fortalecer essa instância democrática, mas falta vontade política. A cultura se transforma muito mais lentamente que a legislação. O governo também é muito ambíguo, pois ao mesmo tempo que estabelece parâmetros curriculares bastante avançados, implementa um tipo de avaliação como o Provão, que é completamente contrário a tudo isso. Ainda assim, há um lado positivo do Provão (risos), pois se discute a qualidade da educação. Antigamente, o grande desafio era colocar as crianças na escola. Agora que elas estão estudando, precisamos rever a qualidade do ensino.



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