ESCOLA ZUMBI – IDEÁRIO DE POLÍTICA EDUCACIONAL, CONCEITO DE ESCOLA PÚBLICA

Ray Lima
Escola Zumbi - Maracanaú - CE - Brasil

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CONTEXTUALIZANDO

É importante para compreendermos um pouco mais o Ideário da Escola Zumbi nos situarmos em relação a todo um caminho percorrido em pouco mais de 18 anos de práticas pedagógicas e políticas públicas, passando por municípios como Janduís-RN e Icapuí-CE, de pequeno porte, e outros de médio e grande porte como Aracati e Maracanaú respectivamente. Desde realidades semi-áridas do sertão nordestino a territórios praianos ou fortemente urbanos, ainda que todos periféricos, mesmo Maracanaú que é da região metropolitana de Fortaleza. Todos em contextos de pobreza, socialmente vulnerabilizados e culturalmente massacrados pelo avanço irrefreável das culturas de massa, tornado ainda mais frágeis essa gente, tornando-a dependente do que pode vir ou não a cada eleição das mãos dos afortunados deuses da política e do capital financeiro internacional.

Justamente este tem sido o desafio maior do Ideário da Escola Zumbi: como romper com uma tradição da educação formal, reprodutora dos mecanismos de poder pré-estabelecidos pelas elites dominantes do Brasil, orientadas pelas instituições que representam o poder econômico mundial? Como pensar e formular estratégias coletivas advindas da comunidade para dar a ela um caráter transformador e emancipatório? Como tornar a educação formal, a partir da escola pública, uma educação de qualidade e excelência, trilhando pelo caminho da solidariedade, da liberdade e da criatividade? Como abrir o espaço da escola pública para a prática da cidadania, tendo como estratégias fundamentais o exercício da democracia, da participação dos diversos atores da comunidade escolar e do direito (principalmente do estudante e do educador) de criar e expressar os conhecimentos no território onde são produzidos cotidianamente e fora dele também? Como enfrentar situações de pobreza e miséria não apenas com o paliativo e passageiro pão e água do assistencialismo, mas com a tomada de consciência, a reflexão, a produção e a difusão de conhecimentos, gerando novas possibilidades de vida e de mundo?

Daí vermos e sentirmos a capacidade que tem o Ideário Zumbi de adaptação e replicabilidade. Por entender que cada contexto necessariamente gera novas perguntas, exigindo também novas respostas. Tais perguntas e respostas sempre construídas a partir das inquietações, sonhos e necessidades das comunidades escolares e dos territórios que o vivenciam. Dizemos que o Ideário da Escola Zumbi tem princípios replicáveis e estratégias renováveis. Cada realidade, cada situação limite recebe um tratamento diferenciado, merecendo estudos específicos e arquiteturas muito próprias. Portanto, a vida, no lugar onde se vive, é a constituinte sempre do(s) tema(s) central(is) da pedagogia e dos conteúdos curriculares, das políticas pedagógicas e da gestão dessas políticas. O estudante, o ser humano que possui história, memória, conhecimento, sonhos... em sua(auto)formação, por sua vez, encarna o “ motivo” da grande obra a ser construída ao mesmo tempo em que assume o papel de protagonista ou sujeito da transformação permanente dessa escola, dessa educação e de si mesmo.

Janduís

Origem. Janduís significa em tupi “índio guerreiro ou ainda “ema ligeira”. Situado no polígono das secas, oeste do Rio Grande do Norte, o município de Janduís sempre foi famoso por fazer parte da área geográfica tradicional da cultura do cangaço. Nesta região nasceu Jesuíno Brilhante, um dos mais importantes líderes do cangaço nordestino depois de Lampião. A fome, a sede, a miséria e a pistolagem eram marcas registradas de um território desprezado pelas políticas públicas e por uma elite que há mais de quinhentos anos se beneficia dessa situação política e economicamente, no maior descaramento da história da humanidade. Com aproximadamente 7 mil habibantes é um município pobre que vive basicamente da agricultura de subsistência, tendo a prefeitura como principal empregadora e responsável pela geração de renda. Foi neste contexto árido que instalou-se a primeira experiência educacional e pedagógica que deu origem ao que hoje denominamos Ideário Escola Zumbi.

Icapuí

Origem. Do Tupi Igarapuí que significa “Canoa Veloz”. Emancipado de Aracati, em 1984, Icapuí possui hoje em torno de 20 mil habitantes. Com 64km2 de praia, extremado com o Rio Grande do Norte, trata-se de uma cidade encantadora e cativante. A educação e a saúde sempre se destacaram como políticas públicas importantes que desde o advento da emancipação a cidade ficou conhecida pelo desempenho de suas gestões, ganhando vários prêmios, entre eles, o Criança e Paz, Educação, das Nações Unidas. Na verdade, o primeiro município da América Latina a ter tal reconhecimento da ONU. Sua base econômica sempre foi a pesca da lagosta, principal atividade, a produção de sal, a agricultura e o cultivo do caju. Mais recentemente, o empreendorismo na área de turismo tem ocupado um lugar importante na economia local. Neste sentido, além da beleza natural, os eventos culturais como as semanas culturais, o festival interestadual de quadrilhas juninas e o Acampamento Latino-americano da Juventude têm servido como atrações turísticas relevantes.

Aracati

Origem. De origem Tupi o nome Aracati, além de outros significados, quer dizer “bons ventos”. Com mais de 170 anos, o município possui hoje cerca de 70 mil habitantes. Situado no litoral leste do Ceará, é conhecido pela literatura de Adolfo Caminha, pelo piano de Jaques klein, assim como pela renda, o labirinto e o artesanato de palha de carnaúba. Aracati ainda dispõe de belíssimas praias, entre elas, a mais famosa, Canoa Quebrada que é conhecida internacionalmente.

Aspectos econômicos. A base econômica é centrada nas atividades industriais e comerciais. Na economia municipal destacam-se: a pesca de lagosta, camarão e peixe; o turismo receptivo com perspectivas para o ecoturismo e o turismo cultural; o beneficiamento de frutas tropicais, a cerâmica e a cera de carnaúba também figuram como atividade produtiva e industrial. A atividade agrícola de melão, milho, melancia, feijão, coco e castanha de caju predominam na região. O artesanato e a extração de petróleo são outras atividades importantes no município.

Educação. No município funcionam cerca de 100 (cem) escolas, 78 (setenta e oito) destas pertencem à rede municipal, 05 (cinco) são estaduais, 04 (quatro) são particulares, sendo 03 (três) dirigidas por congregações religiosas: Instituto São José, mais antigo da cidade com 71 anos; Instituto Waldemar Falcão; e Colégio Marista. O município contava ainda com 13 (treze) escolas de educação infantil e um liceu. Em 2004 possuía aproximadamente 15.176 (quinze mil, cento e sessenta e seis) alunos são atendidos pela rede municipal de ensino.

Maracanaú

Origem. Em tupi, Maracanaú quer dizer “lugar onde as maracanãs bebem água.” É um município de aproximadamente 196 mil habitantes, está localizado na região metropolitana de Fortaleza – CE. A maioria da população é assalariada, trata-se de uma cidade industrial, embora assim, haja muita pobreza e condições de vida bastante precárias. No tocante à questão habitacional, o município é constituído de conjuntos habitacionais com grande carência de melhorias e investimentos em saneamento básico. A cidade demonstra grande vocação para o associativismo, embora isso até agora não tenha se revertido em lutas sociais por avanças na distribuição de renda e conquistas de cidadania. Como práticas educativas podemos ressaltar a criação do sistema municipal de ensino, a atuação dos conselhos municipal e escolares, além da implementação da Escola Zumbi.

UMA OUTRA ESCOLA É POSSÍVEL?

A escola Zumbi luta por uma educação democrática, participativa e emancipadora. Além disto, busca o envolvimento direto dos alunos (maior parte da população comunitária escolar), dos professores, pais e gestores escolares para a formulação de estratégias de desenvolvimento educacional, vinculando-as a políticas efetivas de desenvolvimento local e a práticas de cidadania. A produção de conhecimento, a circulação das informações e dos saberes e o intercâmbio permanente entre educadores, gestores e comunidades escolares são como princípios importantes da Escola Zumbi.

A Escola Zumbi é um ideário de políticas educacionais, conceito de escola pública que tem como estratégias a formulação pela comunidade escolar de políticas públicas. Para isso, estrutura-se em seis eixos fundamentais: Cultura Corporal; Arte e Cultura; Incentivo à Leitura e à Escrita; Cuidado e Preservação do Meio Ambiente; Tecnologias da Informação e da Comunicação; Intercâmbio, Difusão, Produção e Irradiação Cultural. Tais estratégias não só alimentam e animam estudantes, gestores e educadores a construir novas possibilidades de projetos educativos com base em suas realidades e necessidades, como fomentam a elaboração de planos estratégicos participativos que fortalecem a identidade da escola e a auto-estima de todos. Além disso, esta dinâmica dos eixos sugere a renovação de conteúdos curriculares e dos projetos político-pedagógicos, a partir do diagnóstico e mapeamento dos desejos e interesses dos estudantes, adequando os currículos às necessidades de aprendizagens locais, com real participação da comunidade, principalmente dos estudantes.

Mas afinal de que escola estamos falando? De uma escola justa? Justa para quem? Para que e a serviço de quem essa escola existe? Se pensarmos em termos de escola pública poderíamos também questionar em que contexto e território ela existe e atua? No sul, no norte, no nordeste? Naturalmente essa é uma questão que nos leva a refletir sobre vários aspectos da escola e da educação. De qualquer modo, seja o que for, gostaríamos de enfatizar e centrar nosso olhar para o fato de que a razão de ser da escola deve ser o estudante. Para pensar em justiça, a educação escolar teria que partir daí. Este ponto de partida pode trazer a seguinte dificuldade: não haveria de ter uma escola justa, mas escolas justas ou políticas e processos educacionais mais justos. Cada comunidade escolar ao diagnosticar seus problemas, suas necessidades, seus sonhos de gente, de território, de cidade, de mundo poderá construir-se democraticamente para dar conta de seus próprios desafios. A justiça construída e garantida não apenas pela formalidade de uma lei, mas assegurada pela participação, pela mobilização e pelo entendimento da comunidade educativa (que se confunde com a própria cidade), pelo território onde a escola atua e se situa. E nesta perspectiva o segmento estudantil deve assumir um papel fundamental de protagonista e agente de um processo educativo que é seu também. O estudante precisa ser compreendido e levado a sério como ator essencial e não visto como mero espectador. Esta abertura em relação ao corpo discente pode significar a libertação da escola de si mesma, de suas grades, de suas amarras, da camisa de força do sistema, produzindo justiça e qualidade social da educação. Para que haja escolas justas, os estudantes, ou o povão da comunidade escolar, como costumamos falar dentro do Ideário da Escola Zumbi, precisam ser ouvidos, estudados e preparados para o exercício desde cedo da governança democrática da educação escolar.

Parafraseando o Tom Zé, este é talvez o maior defeito de formação na educação escolar: não perguntar aos formandos que formação eles realmente desejam e necessitam para viver onde vivem. Tudo é pré-fabricado para um consumo sumário, pouco ou quase nada se constrói com eles, partir deles, de suas inquietações. O estudante é tratado então como um ser sem visão, boca e voz. É um ser estranho, deformado, dotado apenas de ouvidos. Enquanto isso, as injustiças e as opressões se alastram para além da escola como se fosse uma fatalidade inevitável:

“Já nasci sabendo
que não ia poder saber,
não iam querer o meu querer
por nascer mal e não ceder.

Já nasci sabendo
que o poder detém o ensinamento,
o parlamento da cultura;
saber não me pertence,
falta-me o sangue azul.

Já nasci sabendo
que do lado de cá
abaixo da média da economia
tenho de correr atrás das rédeas de aço
de uma certa etnia puro sangue
a pé
para, se até lá não morrer de cansaço,
conquistar o que fica na fumaça.

Já nasci sabendo:
o saber que me satisfaria
jamais seria esse saber horrendo
empurrado
pré-meditado pela burguesia.

Mal abri os olhos me ensinaram com mau gosto,
tanto que vivo a esconder o rosto;
me dá desgosto essa vida de aprendiz;
veja expresso neste rosto inculto,
faminto, infeliz.

Já nasci sabendo:
que ao nascer repudiariam meu saber;
tentariam me matar no alvorecer;
que ia me arrastar mesmo sofrendo;
queiram ou não queiram, estou querendo.”
(Ray Lima – in Nhandupoiema – Queima Bucha, Mossoró-RN, 1994)

Porém, nem tudo está perdido. Ainda há alguma esperança. Ainda não interditaram o coração dos homens. E de repente, um estudante-poeta-educador, pula o cordão do isolamento e grita: uma outra escola, um outro mundo será possível, quando entendermos que a justiça, a democracia, a cidadania são espaços não de privilegiados nem dos especialistas, mas de criação coletiva, dos quais todos, à sua maneira e em suas potencialidades e limitações, são seus autores e gestores. Por aí segue o Ideário Zumbi com sua utopia e suas práticas também.

A Escola Zumbi tem sua origem na trajetória de vários anos de práticas educativas, passando pela formulação e gestão de políticas públicas de educação e desenvolvimento local em municípios de médio e pequeno porte, como: Janduís-RN; Icapuí-CE; Aracati-CE; e mais recentemente Maracanaú, município de grande porte, onde a experiência poderia ter se aprofundado, caso houvesse os investimetos cabidos e necessários, apresentando-se e ao mesmo tempo concebendo-se como Escola Zumbi, sugerindo um caminho para a construção de uma escola pública democrática e libertadora.

Pudemos perceber nessa caminhada que um projeto educativo, como outros projetos sociais, necessita de um ambiente ou de algumas condições favoráveis para que tenha êxito e sustentabilidade. Em primeiro lugar, a vontade política dos gestores da cidade. Em segundo, a adesão maciça da comunidade educativa. A população deve estar mobilizada e sensibilizada. Neste sentido, Icapuí e Janduís simbolizam magistralmente o que pode significar uma sociedade mobilizada e motivada em prol da educação e das transformações que ela mesma precisa. Essa tomada de consciência histórica por parte dos cidadãos nos parece fundamental na efetivação de políticas públicas consistentes. Em Icapuí-CE, logo após a sua emancipação de Aracati, a população decidiu como prioridade absoluta a educação e a saúde. Não havia escolas, porém isso não impediu que houvesse educação. As aulas, os círculos de cultura aconteciam nos espaços disponíveis em cada bairro: salões paroquiais; sombras de árvores como mangueiras e cajueiros; garagens; espaços improvisados de todo tipo. Era uma decisão coletiva. Não é à toa que essas políticas, educação e saúde, sempre se destacaram no cenário nacional e internacional, levando o município de Icapuí a ganhar vários prêmios, entre eles o CRIANÇA E PAZ, EDUCAÇÃO, das Nações Unidas, o primeiro em nível de América Latina destinado a um município. Janduís-RN, partindo de uma ação cultural, libertou-se da fama de ser uma cidade do cangaço, da pistolagem para figurar como pólo de cultura da região Médio Oeste, no sertão norte-riograndense, tornando-se uma experiência de gestão de políticas públicas respeitada, mesmo tendo que enfrentar até hoje as agruras da fome e da indústria da seca. Atualmente é uma cidade exportadora de cultura, administrada por aquela meninada, antes sem perspectiva alguma, que foi educada naquele clima de ebulição sócio-cultural há 18 anos atrás.

A mobilização comunitária, a organização social, os movimentos organizados jovens e a gestão centrada na participação direta do povo, definindo os destinos da cidade gerou também ambientes favoráveis ao implemento de políticas educacionais democráticas e emancipadoras.

A Escola Zumbi busca entre outras coisas:

- Trabalhar a partir de um ideário, com visão de longo prazo, indo “além das margens da imaginação”, das práticas fragmentárias e da visão de curto prazo muito correntes nas comunidades escolares e nas gestões de políticas públicas em nosso país.
- Sensibilizar o poder público municipal para a disponibilização de recursos financeiros para a manutenção de projetos político-pedagógicos estratégicos, incentivando práticas de políticas públicas no contexto escolar.
- Enfrentamento da burocracia estatal como desafio e luta pelas reais transformações da educação escolar. E assim como na saúde, onde normalmente há dinheiro para a doença e quase nunca para as ações, os projetos que propiciam práticas de saúde, na educação grande parte dos recursos são gastos com evasão, repetência, aceleração, burocracia, entre outras coisas, e muito pouco em aprendizagens significativas, em prazer de aprender, em formação, em práticas educativas que levem o sujeito à cidadania e à autonomia.
- Gestão democrática para uma educação participativa e emancipadora.
- Trabalho em rede e o intercâmbio permanente de idéias e experiências humanizadoras.
- Visão sistêmica do processo educativo.
- Construção e gestão coletiva de conhecimentos.
- Democratização das informações, dos saberes produzidos e acumulados pela humanidade.
- Respeito às diferenças e às múltiplas formas de inteligência.
- Avigoramento das organizações discentes e dos colegiados imanentes ao processo educativo das comunidades escolares e seu entorno.
- Formação de grupos e de novos atores de transformação social.
- Desenvolvimento das aprendizagens associado ao desenvolvimento integral das pessoas (educadores e estudantes) e do território onde vivem.
- Fortalecimento da escola como centro do sistema educativo formal.

Outros desafios prementes

Primeiro buscar ter o máximo de clareza sobre o contexto das escolas e das populações do entorno, na realidade onde se dá a educação. Outro ponto importante é ter consciência das limitações e entraves políticos e burocráticos de uma gestão municipal. Soma-se a isso a busca permanente de integração de políticas, de parcerias e multi e intersetorialidade. Por fim, construir uma boa equipe de facilitação e mobilização que coordene a ação de implementação do projeto com planejamento, avaliação e a garantia de algum recurso, que nunca é suficiente para um sonho do tamanho de um bom projeto, de um ideário como a Escola Zumbi.

A educação democrática pressupõe, entre outras coisas, a universalização das oportunidades, das riquezas, dos conhecimentos, das informações; a qualificação das relações humanas que dão suporte às práticas educativas e de cidadania, ao convívio pacífico, ao reconhecimento das diferenças e à interculturalidade.

Embora toda relação democrática pressuponha participação, o estímulo permanente e o fortalecimento de uma cultura participativa de todos os cidadãos na definição e na condução dos destinos do processo educativo da cidade merecem sempre atenção e cuidados especiais.

A educação escolar é também a educação da cidade. Porém, ela não é o único meio de formação dos indivíduos e a escola não é o único centro educativo da cidade a cuidar da formação dos cidadãos. Por isso, a educação escolar, principalmente a púbica, deve assumir uma postura de permanente diálogo, parceria e interação com a comunidade local e global diante das variadas formas de educar e formar o cidadão e a cidadã. Nesse caso, a escolha é por uma educação facilitadora e mediadora de processos coletivos e individuais libertadores, geradores de auto-estima e autonomia, onde o investimento maior se faz nas pessoas, no fortalecimento dos vínculos e da solidariedade entre elas. A Escola deve ser aberta, promotora de criatividade e alegria, onde o educador pelo prazer que lhe traz a arte de educar transforma-se, tornando-se mais artista e o artista, pela magia da arte de comunicar e refletir com alegria, torna-se mais educador.

Esta escola deve ser também receptora, produtora, difusora e irradiadora de conhecimento e cultura. Receptora porque tolerante e inclusiva, capaz de se abrir e dialogar com as diferenças, com a s energias transformadoras e criativas das crianças, dos jovens ,dos adultos e da cultura local. Produtora porque cumpre a função pedagógica, política e ética da libertação indo mais além do repasse automático e autoritário de saberes acumulados pela humanidade, estimulando a renovação dos conhecimentos. Difusora e irradiadora de cultura porque promove e democratiza as informações e os conhecimentos, fazendo-os circular permanentemente de fora para dentro, de dentro para fora. Tal dinâmica ultrapassa os limites da educação, aproximando-se dos movimentos da vida ou fazendo com que aquela se vincule a esta. O espaço da educação, da pedagogia Zumbi está repleto de incompletude como o ser vivente, mas movimenta-se para a completude por meio do movimento constante, da articulação e circulação dos conhecimentos, da construção de pontes e relações humanas que podem nos levar à construção do próprio ser humano:

“Os espaços têm cheios,
vãos e fuis, pontas e meios,
veias e veios,
vazios não. Vazios não.
Os espaços da vida. Os espaços têm vida,
não são em vão.
Vazios não. Vazios não.”
(Ray Lima- in Tudo é Poesia I. Mossoró-RN, 2005.)

Zumbi, símbolo de lutas sociais, herói de liberdade e resistência do povo brasileiro, é chamado a dar nome a este ideário de educação empancipadora. A interação com a comunidade e o protagonismo dos estudantes são pontos fortes deste ideário que tem a comunidade educativa como grande parceira.

Alicerçada, como vimos, no acúmulo de experiências que foram embrionando e dando corpo ao que cada vez mais amadurece como ideário e prática educativa duradoura, abrindo caminhos para aqueles que não temem, enquanto educadores sociais, a força criativa dos filhos do nosso povo e, por outro lado, abrem mão da concentração de poder e conhecimento para promover e usufruir coletivamente a educação emancipadora. Janduís-RN, Aracati, Icapuí, no Ceará, destacam-se nessa trajetória político-educativa como vivências políticas, culturais e pedagógicas pioneiras no Nordeste e no Brasil dos anos 80 e 90, tendo a frente o poeta e educador Ray Lima e o facilitador de políticas públicas e educador Augusto Jerônimo Gomes.

A proposta valoriza e estimula o investimento na criatividade dos alunos e nas potencialidades locais, chamando a escola e a comunidade para a responsabilidade de educar as crianças para a cidadania. Os estudantes, nesse contexto, são os protagonistas da difusão e inclusão do ideário e suas práticas, integrando o núcleo gerencial que tem o papel de facilitar, gerenciar e irradiar a experiência no interior das comunidades escolares.

Estratégias

A SUSTENBILIDADE DO SER

O SER torna-se sustentável
quando revela humanidade nas atitudes,
quando constrói harmonia nas relações;
quando gera sintonia nas conversas,
nos olhares, nos projetos, nas ações.

O SER torna-se sustentável
quando a complexidade de suas idéias
e do seu pensamento torna simples
a vida das pessoas.

O SER torna-se sustentável
quando dá vida a tudo que é criação,
quando a morte não é opção -
onde o vivo torna-se mais vivo
e, à medida que vive, mais irmão.

O SER torna-se sustentável
quando se multiplica ao mesmo tempo
em que se preserva ; se valoriza a pessoa
que é, como é; se embeleza o ato de viver.

O SER torna-se sustentável
quando se mistura a biodiversidade dos universos ao artístico, ao científico, ao erudito, ao popular;
quando ganha a vida um ritmo, uma alegria, uma leveza,
um charme infinito que não encerra.

(Ray Lima- inédito)

Em relação a suas estratégias, O Ideário Zumbi aposta na formação de grupos mobilizadores envolvendo estudantes, educadores e gestores com vistas à estruturação de ações políticas e pedagógicas sustentáveis a partir dos Eixos Fundamentais. Tais eixos permitem que a comunidade escolar estruture melhor e invista em políticas efetivas. Funcionando como verdadeiros laboratórios móveis, as atividades dos eixos podem ser praticadas em qualquer lugar que acomode um grupo de pessoas interessadas. A ação, o convívio e o trabalho em grupo é um dos fundamentos que pode assegurar a funcionalidade dos eixos. Tomamos para início seis campos de atuação, como veremos a seguir, porém, com o tempo e a assimilação do ideário da Escola Zumbi, as comunidades escolares podem e devem criar tantos quantos forem preciso para dar conta das inquietações, dos sonhos e necessidades das crianças e da comunidade.

Estruturando e organizando suas ações em eixos estratégicos, as escolas constroem participativamente seus planos, envolvendo diretamente os estudantes na definição das atividades a serem trabalhadas em cada eixo. Tal exercício leva as comunidades escolares a realizar uma espécie de orçamento participativo do conhecimento. Mas a participação da meninada não fica por aí. Além de definir os conteúdos do plano de ação, aprendem a se organizar em grupo para tocarem sua execução. Cada eixo fundamental possui uma equipe de mobilização e gestão específica. Tais grupos são acompanhados por educadores que, por afinidade com sua disciplina ou pelo desejo próprio, associam-se ao grupo para orientar e auxiliar na gestão das políticas relacionadas ao eixo, fazendo também o link de suas práticas com a produção teórica de sala de aula. Ao todo são seis eixos fundamentais:

- Ação Educativa de Arte e Cultura- Por um lado, a questão cultural deve ser revista, repensada e melhor cuidada no contexto escolar. É fato hoje que não se pode pensar em educação, em desenvolvimento sustentável sem pensar em cultura, tampouco pensar em cultura sem vinculá-la a um projeto de povo, de cidade, de país. Se sonhamos em ser alguma coisa, o somos pela cultura. É por ela que nos movimentamos. É com ela que somos capazes de lidar com as certezas e incertezas da vida. E é por meio dela que nos transportamos para outras dimensões fora do que entendemos por real para compreender e transformar a própria realidade. Através da cultura reinventamos o mundo, criamos e polimos as ferramentas para lidar com o inusitado que pode ocorrer entre o nascimento e a morte do ser. Por isso tudo a cultura, mais que um tema importante, é uma dimensão da educação escolar que indispensavelmente deve ser tratada como política pública em caráter permanente. Por outro, uma política pública de arte e cultura, pode trabalhar as disposições artísticas e culturais, visando à estruturação de ações continuadas nessa área, bem como a valorização dos talentos, através da reanimação histórica de danças, músicas e outras linguagens e expressões da cultura local e regional. Neste contexto, a cultura e a arte como linguagem e instrumento poderoso de comunicação humana, de geração de vínculo entre as pessoas, de prática de cidadania, pode muito contribuir com o processo educativo e pedagógico. Dentro da filosofia da Escola Zumbi, a arte e a cultura representam um eixo fundamental que busca despertar a criatividade das crianças e dos educadores, além de estimular a comunidade escolar para a construção de uma política de cultura duradoura, capaz de tornar o ambiente educativo mais prazeroso e mobilizado.

- Ação Educativa de Cultura Corporal – Busca dar ciência do corpo no aspecto cultural e social, motivando práticas de atividades físicas na escola e no seu entorno. Mais do que uma atividade física, a cultura corporal investe no auto-conhecimento e na gestão do território que é o corpo. A gestão do corpo apresenta-se como uma possibilidade da criança, do adolescente de, ao compreender-se melhor como um espaço de estudo e práticas da vida, construir-se como pessoa, como cidadão e sujeito e histórico que pode aprender brincando a ser autônomo e gestor de si mesmo.

- Ação Educativa para o Cuidado e a Preservação do Meio Ambiente – A partir da construção da Agenda 21 Escolar, busca motivar o interesse e o cuidado com o meio ambiente, com vistas à melhoria na qualidade da educação e da vida comunitária. A política ambiental escolar deve aparecer como ação permanente, estruturante e transformadora da cultura existente de desrespeito à vida e à diversidade.

- Ação Educativa de Incentivo à Leitura e à Escrita – A partir de práticas de leitura e escrita, este eixo busca tratar o tema como direito de cidadania e estratégia de auto-realização, desenvolvimento e libertação do ser humano. A política de incentivo à leitura e á escrita tem como ponto forte a autoria, a produção e a difusão de livros pelos estudantes.

- Ação Educativa para a Inclusão e a Democratização das Tecnologias de Informação e Comunicação – Encarando o ser humano como principal meio de comunicação e disseminação do conhecimento, este eixo estimula também o exercício da comunicação e da informação como linguagem; ferramenta valiosa de acesso às novas tecnologias da comunicação e à cidadania digital, através da produção de jornais, jornais murais, rádio escolar, fanzine, cultura digital, etc.

- Ação Educativa de Intercâmbio, Difusão e Irradiação Cultural – Este é o eixo da interação que democratiza e evita o isolamento dos conhecimentos gerados pela e na comunidade. Desempenha a função de articular e integrar as ações produzidas pelos demais eixos e pela escola enquanto comunidade de aprendizagens. Visa difundir as experiências no meio escolar, no entorno, e entre as escolas, estimulando práticas políticas de intercâmbios, produção e difusão, irradiando cultura, dando movimento e circulação aos saberes, alimentando a construção de comunidades de aprendizagens.

Função dos eixos

Todos esses eixos fundamentais, entre outras funções, visam a auxiliar os gestores escolares no sentido de organizar e potencializar que atividades descontínuas, fragmentadas ou cerradas no espaço restrito da sala de aula tornem-se mais amplas, efetivas e sustentáveis, ou como costumamos dizer: políticas públicas da comunidade escolar. Este tem sido um exercício interessante, oportunizando aos estudantes a vivência prática dessas linguagens e ferramentas estratégicas da vida globalizada ao mesmo tempo em que passam também a compreendê-las como direitos de cidadania. Direito ao saber e às práticas da cidadania cultural, científica, tecnológica e ambiental, bem como do pleno domínio da leitura e da escrita, da gestão do corpo (cultura corporal) e dos meios de produção e difusão cultural.

Gestão do processo

O gerenciamento em nível de escola fica a cargo de um Núcleo Gerencial, composto por gestores, estudantes e professores que recebem uma capacitação para formar as equipes dos eixos, construir e implementar seus planos de ação. A intenção com este modelo de facilitação é de buscar uma cultura emancipatória e de autonomia tanto por parte das comunidades escolares.

Orçamento participativo do conhecimento

Dentre as estratégias do Ideário Escola Zumbi destacamos ainda o “Orçamento Participativo do Conhecimento.” Partindo do princípio de que os estudantes são pessoas “iluminadas”, possuem luz própria, portanto, não devem ser tratadas simplesmente como alunos, seres sem luz, sem identidade, vazios de conhecimento e de história, que o poeta ironicamente prenuncia:

“Minha cabeça
‘se monstro sem rumo
‘sa bolota mole
ess’estupidez!
Terra sem húmus?
Quer ser.”
(Ray Lima. Semi-árido – in Nanhdupoiema. Mossoró-RN, 1994)

Ao reconhecer isto, o Ideário Zumbi não apenas questiona o desrespeito, milenar e explícito, a esse segmento social que, sem dúvida, é o mais importante da comunidade escolar. Para fazer valer o que afirmou um menino de um grupo teatral da escola municipal Mário Covas, desses que já nasceram pelas ações do eixo de arte e cultura. Então recebendo os aplausos, logo após sua apresentação, e deixando ficharem-se as cortinas do teatro, talvez intencional para criar suspense e dar mais impacto a sua fala, ele abriu uma brecha da cortina, pôs apenas a cabeça de fora e disse para o público presente: “ei! saibam vocês que menino só não tem tamanho, mas tem cultura.” Claro que todos o ovacionaram com fervor. Espetacular!

Contudo, a Escola Zumbi quer ir mais além e propõe uma mudança radical na metodologia e nos processos de construção e formulação dos currículos, dos projetos de desenvolvimento da educação escolar, da formação continuada dos educadores e da própria gestão das aprendizagens. Usando metodologias participativas como encontros, reuniões, assembléias, aplicando instrumentos de pesquisa, entre outras formas, as escolas podem realizar o mapeamento dos interesses, dos sonhos e desejos, das tendências, das habilidades, conhecimentos e do potencial existente do meio estudantil e do interior da escola. Todas as informações são sistematizadas e servem de base para proposições as mais diversas: formulação das chamadas políticas públicas escolares organizadas, implementadas e gerenciadas pelas equipes constituídas pelos Eixos Fundamentais; construção dos currículos(de sua dimensão local/regional); elaboração dos projetos de desenvolvimento da educação e do entorno escolar; desenho de projetos de formação continuada dos educadores; desenho de projetos de avaliação e acompanhamento, onde os estudantes também possam propor e participar dos processos avaliativos de sua própria aprendizagem, etc.

Além do mapeamento interno, as escolas são orientadas a realizar o mapeamento das potencialidades e recursos (humanos, financeiros, materiais e imateriais) disponíveis no território local. Afora o caráter mobilizador desta ação, a escola passa a conhecer e a ter maior propriedade no tratamento e na valorização da pessoa, do olhar e da expressão de cada menino e menina com quem lida diariamente; assim como da riqueza cultural, social, econômica, ambiental da comunidade do entorno, abrindo caminho para possibilidades de construir parcerias e estabelecer uma relação inteligente e solidária, de integração e não de isolamento com o mundo que a rodeia. Imaginemos quanto de recursos disponíveis nos bairros, na cidade, é desconhecido, ignorado e ou desprezado pelos gestores escolares, pelos professores, pelos próprios estudantes? O quanto a educação escolar deixa de ser enriquecida, fortalecida, revitalizada, resignificada? Pois todo esse mundo desconhecido pode ser matéria pedagógica, de estudo, de pesquisa, de produção de novos conhecimentos. O desconhecimento, diferentemente da indagação e da curiosidade, gera paralisia, desconforto, pobreza. E se não temos curiosidade pelo desconhecido, pelo não feito, pelo que está para além do teto da escola, o mundo e a vida acabam ali mesmo, produzindo tédio, tornando o ato de aprender algo repetitivo, enfadonho, pobremente triste. O teto da escola não gera curiosidade. É o mundo do já visto e revisto, do já vivido e revivido, da rotina cansativa e tediosa da repetição, da reprodução que reprova e distancia. O teto do céu, este sim, estimula e mobiliza nosso cérebro curioso, nosso olhar buliçoso, nas energias imaginativas, criadoras. Lá está o infinito desconhecido que nos interessa. Lá podemos vislumbrar os milhões de galáxias que continuam inteiramente desconhecidas; os mistérios do cosmos, a complexidade dos universos e da vida. O que nos faz querer voar, dando asas á imaginação, ao fervilhar das células das descobertas do mundo e de sua reinvenção. Quando olhamos para o céu, mesmo em plena sociedade das tecnologias, das informações, dos avanços científicos e tecnológicos, capazes de explicar quase tudo, mesmo assim, quando miramos os olhos para aquele largo espaço abobadado em constante movimento é como se tudo estivesse por descobrir, por inventar, por fazer. Então constatamos que o universo das aprendizagens é sempre maior do que o universo das aprendizagens escolares. O que nos faz pensar:

“se tudo, como dizem,
já foi feito e dito,
o que nos resta
senão ralar no infinito.”
(Ray Lima. Do próprio Verbo. In Tudo é Poesia Vol. I – 2ª ed. Mossoró-RN: 2005.)

Em certa medida, os eixos fundamentais da Escola Zumbi podem ser um leito natural e corrente para as infinitas e permanentes inquietações utópicas das crianças, dos jovens, dos educadores, dos estudiosos e aprendizes da vida:

“Mim - Eu quero pegar o sol
Ti - Você se queima

Mim - Eu quero pegar o sol!
Ti - Você se queima!

Mim – EU QUERO PEGAR O SOL!
Ti - VOCÊ SE QUEIMA, PORRA!!!

Mim – EEEUU...!!!
Ti - VOCÊ

AAAiiii!!!!

Ti - Eu te avisei
Mim - Que me importam seus avisos.

Ti - E agora o que fazer?
Mim -Nada. Curar a queimação
e buscar de novo o sol.

Ponta de pé
Pisa no chão
Estica o braço
Estica a mão
Toca no céu
Agarra o sol
Pega com a mão”
(Ray Lima. Utopia. In Ultrapassagens,Fortaleza:1994)

Como podemos perceber, o Orçamento Participativo do Conhecimento é estratégico porque ajuda a canalizar sonhações, democratizar o processo educativo e mobilizar toda a comunidade, envolvendo e definindo responsabilidades e papéis para todos aqueles que estão metidos direta e indiretamente com a educação escolar. Até porque a educação escolar, como dissemos antes, não é a única forma de educação existente no território, na cidade. E por isso mesmo deve estar indispensavelmente articulada com toda a vida social e cultural, bem como ao desenvolvimento sustentável desse território.

A arquitetura e o lugar das aprendizagens

Outra preocupação do Ideário Escola Zumbi tem a ver com a estrutura e a linguagem arquitetônica das escolas. O problema da concepção dos espaços físicos destinados às aprendizagens poderia receber tratamento igual ou nunca inferior a outros que vão desde a formulação participativa do currículo ao uso dos tempos e espaços pedagógicos; da necessária mudança de postura dos educadores e dos estudantes em relação a seus papéis específicos à gestão educativa; da autonomia ao financiamento.

Muitas vezes percebemos avanços políticos e pedagógicos em algumas escolas, porém sua estrutura física não acompanha essa evolução, impedindo quase sempre que as práticas renovadas aconteçam de fato. A arquitetura da escola é determinante para a construção de um ambiente que proporcione o encontro, a integração e facilite maior diálogo entre a comunidade escolar e população.

Tradicionalmente, a arquitetura escolar promove o desencontro, o isolamento, a divisão, a não comunicação. As salas são quadradas, as cadeiras enfileiradas, não existem pátios, praças nem jardins. As bibliotecas ficam escondidas e quando existem são em lugares inadequados ou em quartos adaptados, onde uma senhora ou alguém de cara fechada não está preparada(o) para o serviço.

Raramente, quando se constrói uma escola, pensa-se no ambiente, no impacto que o modo como a obra aproveita ou desperdiça as possibilidades do terreno e do entorno. Normalmente o prédio de uma escola é resultante da multiplicação de salas de aula necessárias para atender a demanda ou uma quantidade x de “alunos”. Não se pensa na complexidade do ambiente propiciador de bem-estar, de aprendizagens que se pretende a escola. Onde ficam os equipamentos culturais: o teatro, o anfiteatro, a sala de música, a sala de dança, o atelier, a sala de vídeo e cinema, etc.; onde está na planta da escola a biblioteca informatizada, a hemeroteca, a sala de leitura repleta de poetas, escritores e contadores de histórias; a brinquedoteca; a quadra coberta, o campinho de futebol, a piscina, o parque, os espaços de lazer, jogos e brincadeiras, dados às práticas de cultura corporal; onde localiza-se o jardim, o horto, a horta, o pomar, a sala de reciclagem, etc. para o exercício das políticas ambientais; e o espaço de pesquisas e experimentos científicos?; a sala de cultura digital, a rádio escolar, a redação do jornal, dos fanzines e quadrinhos, da tv escolar? Onde está a tenda, a lona do circo para as práticas de artes circenses? E, por fim, onde está o veículo escolar, não aquele de transportar os estudantes de casa para a escola, mas o que serve à difusão e à irradiação cultural de toda produção anual. Este, embora não faça parte do design do arquiteto, pode vir a ser um equipamento móvel que viabilize e dê visibilidade ao que se produz no interior da escola; que faça a ponte entre a escola e o território que a circunscreve; que permita viagens, que promova o intercâmbio com outros centros de formação, com outras culturas dentro e fora da cidade; enfim, que ajude na circulação das ações de leitura e escrita, de arte e cultura, de tecnologia da comunicação e informação. Ou seja, uma extensão móvel da escola para além dos muros da escola. E aí falo de escola pública, mesmo sabendo que neste aspecto, em termos gerais, não é tão diferente em relação às particulares. É utopia? É exagero da nossa parte? Não. Sinceramente não. Já experimentamos isso em Aracati, por exemplo. O fato é que, neste quesito, a educação padece de grande carência, merecendo cuidados e reflexões profundas e urgentes.

Enfim, a arquitetura pode não ser a coisa mais importante, pois a pessoa do estudante não tem concorrente, mas pode ajudar a conceber uma estrutura física que, por um lado, aproxime as pessoas das pessoas, e por outro, propicie uma comunicação melhor e maior da escola com seu entorno. Ela pode não resolver problemas crônicos da educação formal, mas sem dúvida conseguirá estabelecer pelo menos fisicamente o início desse diálogo tão longíquo entre escola e a comunidade. A arquitetura deve ser um equipamento humano e humanizador, como diria Oscar Niemeyer. E a nosso ver a arquitetura escolar, além disso, deveria ser um equipamento humanizador e pedagógico. Se no pensar do Niemeyer, “a arquitetura tem de ter um sentido humano”, a arquitetura escolar tem que expressar seu sentido pedagógico. Se, segundo ele, “a arquitetura evolui de acordo com a técnica e os problemas sociais”, a arquitetura escolar deve evoluir também a partir dos problemas pedagógicos, extraídos dos problemas e necessidades sócio-culturais, econômicos e ambientais das crianças ou dos estudantes, do território onde vivem. Sendo assim, que arquitetura serve a que educação, que por sua vez serve a que sociedade, ambiente, cultura, visão de mundo...

O investimento na criatividade e o saber do futebol

Em copas do mundo – quando o Brasil joga mal, quando nossos jogadores não bailam com a bola e, ainda por cima, perdem, a frustração, o desconforto anímico, a irritação é total. Quando perdem com toda sua ginga, com seu bailado próprio da nossa cultura há compreensão, todos entendem, reclamam, mas aceitam. É como se o drible, a pedalada que entorta o adversário funcionasse coma uma lei de compensação.

Porém, quando perdemos na tentativa insólita de imitar a dureza, a rigidez européia, ficamos furiosamente chateados, tristes, inconformados. É como se nos perdêssemos de nós mesmos, da nossa cultura, nos afastássemos da nossa identidade, mergulhássemos em profunda anomalia e melancolia social, cultural, humana. É como se o jogo abdicasse de suas próprias regras e normas sagradas. O nosso jogador, assim como a nossa cultura, se desorganiza quando tenta se organizar como os europeus, os americanos, etc. Europeu e americano aqui é um modo de expressar o outro que inventamos ser sem poder, nem saber, por uma fraqueza de espírito, por vaidade ou por falta absoluta de criatividade. Nossa organização é, por princípio, desorganizada. Portanto, se nossa capacidade de organização não está na razão europeizada, não estaria na razão intuitiva e curvilínea afro-índio-brasileira que encontramos em larga abundância na reinvenção do repente medieval europeu, na antevisão do candoblé, no caos organizadíssimo do carnaval? O nosso futebol não foge a essa regra. Ele é torto, cheio de ademanes, repleto de curvas e não retilíneo como o europeu e seus derivados.

Se assim é, nossa pedagogia não deve querer negar ou evitar a graça, o trejeito, a alegria que temos ao fazer as coisas no dia-a-dia, por que temos que ser europeus quando ensinamos, educamos, aprendemos, etc. e brasileiros, quando saímos da sala de aula, do escritório, do gabinete; quando descemos ao botequim ou quando comemoramos aniversários, vamos para o barzinho, fazemos nossas festinhas de encerramento, longe das crianças. Por que a educação escolar há de ser tão carrancuda? Tão despropositalmente distante da vida que levamos no dia-a-dia. A brincadeira não é só um fetiche de coisa não séria, é um modus vivendi, uma razão de ser do brasileiro que se preza. Portanto, ela pode ser um grande instrumento, ou talvez a raiz de uma possível pedagogia do futuro. Para isso, precisamos nos conscientizar e assumir a alegria como estratégia para o desenvolvimento de uma pedagogia leve e eficiente. No meio popular, ao falarmos de algo que temos segurança de que sabemos fazer e nos dá também prazer, dizemos: ah, isso eu faço brincando!

As crianças gostam e sabem muito bem disso, mas precisam de espaços e oportunidades para exercerem tal direito - de aprender brincando e brincar de aprender. Os professores querem, mas precisam de re-educação para se libertarem de suas amarras e passarem a educar para a liberdade e a alegria.

Os gestores necessitam de ampliar suas visões, aprenderem a gerenciar a alegria, transformando os processos educativos estruturados em ambientes pesados, em estruturas dinâmicas com pedagogias leves e inteligentemente alegres. Precisamos parar de mentir para nós mesmos de que o paletó e o vestido longo é o mais adequado para um nordeste de sol abrasador o ano inteiro. Sem nos deixarmos cair nas armadilhas descabidos e fora de propósito dos bairrismos, xenofobismos, nacionalismos, fundamentalismos e outras coisas do gênero - inoportunas em quaisquer épocas de quaisquer civilizações - obviamente merecemos e devemos exercer o direito de buscar nossos próprios caminhos, potencializando e reafirmando o que somos, reconhecendo e valorizando o que possuímos.

Portanto, como bem diz a professora doutora Helena Côrtes, da PUC-RS, em seu artigo: Desafios da Formação de Professores para o Uso dos Multimeios na Educação e no Ensino:

"Sabemos todos, especialmente nós, que trabalhamos com a educação de crianças, jovens e adultos, que a escola que aí está tem seus dias contados, pois, se é fato que não mais responde aos desafios que lhe são impostos, também o é a constatação de que não tem suficientemente se perguntado como enfrentá-los... Como superá-los, então, se não há perguntas que possam encaminhar alternativas de solução? Se um desafio, como vimos, já em sua etimologia, contém 'inquietação' e 'tentativa', certamente não será em meio à generalizada acomodação reinante no ambiente escolar, que encontraremos as condições de fazer frente à necessidade de uma nova e mais ampla configuração da escola enquanto agência educativa.

Precisamos 'sacudir a poeira' de um ambiente que se fechou para a transformação do mundo e praticamente o alijou como objeto 'vivo' de estudo. Que sentido tem o estudo das ciências exatas, senão para nos permitir entender (caso isso seja possível...) o movimento acelerado de uma economia que nos define as regras de sobrevivência cotidiana? Por que estudar os fatos determinantes do período histórico do Brasil Colônia, senão para compreender as novas e mais incisivas formas de colonialismo econômico e cultural que se desenvolvem entre as nações? Como estudar Biologia, sem refletir sobre as inumeráveis questões ambientais e humanas que deságuam numa ecologia de dimensões planetárias? Por que decorar uma infinidade de regras lingüísticas apenas para a produção de textos que não serão interpretados também à luz das várias outras formas de comunicação? Por que desconsiderar as múltiplas linguagens que permeiam a vida e são igualmente capazes de expressar as idéias e os sentimentos que povoam nossas mentes e pulsam em nossos corações?”

E propõe: “O verdadeiro conteúdo do ensino é a vida, em toda a riqueza de sua pulsação, com seus conflitos, incertezas e descobertas, apresentando, todos os dias, novos desafios a enfrentar, e impondo à escola a exigência de se mostrar competente na organização de estratégias metodológicas que permitam ao aluno construir sua identidade pessoal e preparar seu futuro profissional sobre sólidas bases teórico-práticas e sob a inspiração de valores humanos e éticos. Por isso, o aporte dos multimeios de comunicação e informação, que configuram a vida contemporânea, não pode ser desprezado. E, se o conteúdo do ensino é a vida, o verdadeiro objetivo da educação é fazer desse conteúdo uma lição de humanidade e cidadania, para que o mundo em que vivemos se torne mais justo, para que seres humanos educados sejam seres humanos melhores.”

POR ESSAS E OUTRAS RAZÕES, uma outra cultura pedagógica, uma outra escola é possível e necessária.

A razão de estar aqui, de pensar assim é que vimos do mundo da criação, da expressão de corpo e alma, da espontaneidade nordestina, do repleto que é a brasilidade. E vimos não do mundo da razão cientificista pura, européia, fria e calculista. Por isso, sim, temos outras razões para sermos e agirmos diferenciadamente.

O mundo da criação daqui não possui uma lógica tão “certinha” e previsível como a de lá. O que define a nossa lógica, nos limites e alcances de nossas linguagens, é o processo - que vai dando vida e forma à criatura em pleno ato da criação.

A razão da nossa lógica é a expressão da nossa alegria. Com o que somos capazes de cuidar (do corpo) da vida instrumentalizados com diversas linguagens e modos de dizer e fazer. A espontaneidade do nosso repente criador, da nossa postura de humor e riso é um modo de ser, de pensar, agir e viver da nossa gente.

Daí tal espontaneidade criativa merecer maior atenção, principalmente quando falamos de educação, de pedagogia, de aprendizagens.
E destas fontes podem surgir outras formas de razão, de organização, de interação entre as idéias, as pessoas - outras formas de ver e viver o mundo.

A razão de pensar assim não é outra senão aquela que constrói novas razões, sustentáveis razões para viver associado ao outro, em comunidade, alicerçando relações de qualidade, capazes de nos tornar mais humanos e inteligentemente solidários, de nos fazer usufruir a complexidade do ato de viver nos tempos e espaços construídos e reconhecidos como sendo vitais.

Por essas e outras tantas razões ainda não pensadas nem vividas uma outra cultura pedagógica, uma outra cultura escolar se faz urgentemente necessária.


Ray Lima – Ator, poeta, diretor teatral e educador. Vem há quase vinte anos vivenciando e refletindo sobre práticas de políticas públicas, principalmente no campo de educação e cultura em municípios do nordeste do Brasil. Publicou vários livros de poesia e em parceria com o educador Augusto Jerônimo Gomes, com o apoio da Fundação Kellogg, publicou: Programa Zumbi – uma ruptura no sistema educacional, que relata a experiência vivida no município de Aracati-CE- Brasil.



Criada por: fernanda194 pontos . última modificação em: Segunda-feira 21 de Julho, 2008 10:20:52 BRT por carol626 pontos .

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