Em busca de escola

Em busca da escola


Os pais fazem a escolha com pouca informação. Descubra o que levar em conta antes de
decidir (Patrícia Cerqueira - Fotos Roberto Loffel)


Os alunos da Camb-Caminho Aberto, em São Paulo, na grande área de areia do colégio: a proposta é construtivista e a
escola prioriza as brincadeiras como forma de ensinar
Escolher a escola do filho é uma tarefa carregada de simbolismos. Neste momento os pais
dão o primeiro passo para realizar os inúmeros sonhos, projetos e expectativas que têm
em relação à criança. É também uma decisão muito difícil, que implica conciliar um
conjunto de fatores, alguns mais importantes que outros, como se fosse montar um
quebra-cabeça cujas peças têm tamanhos diferentes. Se você não tem informação para
ponderar o peso de cada item, corre o risco de deixar de fora o que é essencial. Foi o que
constatou uma pesquisa qualitativa feita em São Paulo com quarenta casais de classe
média alta, que haviam concluído a busca pela escola ou ainda estavam à procura da
melhor opção. Eles demonstraram preocupação cuidadosa com a limpeza, a segurança da
escola, o preço, a proximidade de casa e a modernidade expressa na existência de
computadores ou na infra-estrutura vistosa. Mas no momento de questionar os aspectos
educacionais, foram superficiais: queriam saber se a escola era capaz de disciplinar o
aluno e torná-lo competitivo, mas não se interessaram em detalhar de que maneira esses
objetivos seriam atingidos. 'A maioria dos pais não tem informação sobre o universo
educacional e acaba seguindo critérios muito simplistas. Não é incomum, por isso, ficarem
decepcionados depois', afirma a psicóloga Renata Rubano, autora do estudo, realizado
pela empresa 0,5 Ponto Pesquisa de Mercado.
Ponto de partida
Para orientá-los da melhor forma possível, CRESCER consultou vários especialistas. Eles
recomendam aos pais pensar primeiro nas suas próprias expectativas. Devem se
perguntar, por exemplo:
Quais são meus anseios em relação ao meu filho?
Que tipo de criança ele é?
Quais são as necessidades dele no momento? Ter amigos ou ser alfabetizado?
Do que não abro mão em relação à educação dele?
As respostas ajudam a compor o perfil da escola mais adequada, ao colocar em evidência
as características gerais da família e suas motivações. Segundo a pesquisa, é comum o pai
ou a mãe projetarem nessa escolha a própria experiência escolar, desejando repeti-la, se
foi bem-sucedida, ou repará-la, se foi traumática.
Parceria necessária
É preciso cuidado, pois a escola é para a criança
e não para os pais. Ao mesmo tempo, todos têm
de gostar dela. E surge aí outra dúvida
freqüente: o quanto é importante fazer uma
escolha que combine com a família. Algumas
crianças funcionarão melhor num ambiente mais
rígido e outras num mais liberal, ainda que os
costumes sejam diferentes. Mas há um limite
para essa flexibilidade. 'O ideal é que os valores
gerais de ambos caminhem no mesmo sentido,
Sala de aula da terceira série do tradicional
para que haja confiança e respeito', alerta a
colégio Visconde de Porto Seguro:
psicopedagoga Silvia Gasparian Colello,
considerado um dos melhores de São Paulo,
tem o que se chama de ensino 'puxado', com professora da Faculdade de Educação da USP.
muito conteúdo e disciplina rígida
Continuidade?
Um dos pontos que pode complicar a escolha é a busca por uma solução definitiva, a
escola onde o filho possa estudar da educação infantil ao ensino médio. 'Esse desejo torna
o processo mais crítico porque, em geral, nenhuma instituição é boa da educação infantil
ao ensino médio. Há períodos melhores e outros mais fracos', diz Renata Rubano.
Avaliar a possibilidade de mudança é sempre saudável, segundo os especialistas. 'O único
cuidado é não deixar que ocorra durante o processo de alfabetização, entre 6 e 8 anos',
alerta a psicopedagoga Neide Noffs, professora da Faculdade de Educação da PUC-SP.
Porque cada escola alfabetiza de um jeito: por palavras, textos, som das letras. E, como é
um processo, se ele for interrompido a criança poderá enfrentar dificuldades no
aprendizado.
Algumas das principais propostas educacionais
Tradicional
Originária das escolas públicas francesas do século 18, dá prioridade ao conteúdo. O
ensino é centrado no professor e voltado para o programa, o livro didático e a disciplina.
Há muita lição de casa, trabalhos em grupo e pesquisas, sempre com o objetivo de
transmitir conteúdos e fixar conceitos. Preocupa-se com o vestibular.
Montessoriana
A principal característica são as atividades com objetos (cubos, quebra-cabeça) e canções.
Geralmente as crianças trabalham dispostas em círculos. O professor é orientado a
explorar as aptidões e interesses individuais e os diferentes ritmos de aprendizagem.
Construtivista
Dá ênfase ao desenvolvimento do raciocínio.Valoriza a criação, a reflexão e o confronto de
idéias. Em vez de memorizar conteúdos, o aluno é incentivado a construir o conhecimento.
Buscando informações, criando hipóteses e testando suas idéias. Os professores levam em
conta os erros dos alunos porque é a partir deles que se entende como eles pensam.
Pedagogia Waldorf
Os alunos estudam com a mesma turma e com a mesma professora dos 7 aos 14 anos.
Não há repetência nem atribuição de notas. Priorizam a arte e a música. A alfabetização
começa a ser feita por meio de canções e leituras de contos e lendas. Preocupa-se em
formar adultos livres, com pensamento individual e criativo, e não em aprová-los no
vestibular.
Fonte: Silvia Gasparian Colello, professora da Faculdade de Educação da USP.
Perto de casa
Definidas as expectativas, é possível ter um perfil da escola que se quer buscar - se uma
tradicional, liberal, moderada, religiosa ou bilíngüe, por exemplo. A partir daí, entram em
cena as peças do quebra-cabeça. A primeira delas, por praticidade, é a localização da
escola. O ideal é que seja perto de casa, para evitar gastos com transporte, além de
facilitar a convivência da criança com os colegas, moradores da mesma região. Outra
possibilidade é a escola próxima do emprego de um dos pais.
É sempre bom lembrar: se não houver uma alternativa boa perto de casa, pode-se
recorrer aos transportes escolares. Nesse caso, vale calcular o custo e o tempo que seu
filho terá de ficar no trânsito.
Vamos ver
O próximo passo é conhecer de perto as
escolas. Os pais devem se preparar para as
visitas. É bom que o local seja amplo, limpo e
arejado. Quanto menor a criança, mais
importante esse item para a sua saúde.
Outro aspecto básico é verificar o esquema
de segurança na entrada, na hora do recreio
e na saída dos alunos. Para isso, visite o local
em horários diferentes, como sugere a Alunos de 3 e 4 anos do Colégio Pentágono, em
pedagoga Silvia Amaral de Mello Pinto, São Paulo: a professora usa cantigas de roda e
a rotina das crianças para começar o processo
acostumada a dar palestras a pais sobre a de alfabetização
escolha da escola. Outras dicas:
Informar-se sobre as atividades incluídas na mensalidade, idade mínima e testes para
ingressar na escola.
Saber a proporção de alunos por classe. Até 1 ano de idade, a sala deve ter no máximo
seis crianças por adulto. De 1 a 2 anos, oito crianças, de 2 a 3, doze alunos, dos 3 aos 6,
vinte crianças e, a partir dos 7, de 25 a trinta alunos. Classes mais numerosas precisam
contar com professores-assistentes ou monitores.
Observar como os alunos são tratados pelos funcionários e professores e como a direção
da escola se relaciona com todos.
Checar os recursos da escola como quadra de esportes, laboratório, biblioteca e
playground são importantes para o aprendizado, porque dão uma possibilidade de variar
as aulas e manter os alunos interessados.
Conversar com outros pais sobre o funcionamento do colégio, lembrando de perguntar
sobre a manutenção do espaço (pintura, equipamentos) e demissões, detalhes que podem
dar pistas sobre a situação financeira da escola e indicar que a qualidade do ensino ali
pode estar comprometida.
Fazendo a própria escola
Você gostaria de ver seu filho decidindo
em assembléias os rumos do próprio
aprendizado em condições de igualdade
com o professor ou o diretor da escola? A
primeira instituição a adotar esse modelo
educacional foi uma escola criada por Leon
Tolstói, em 1857, na Rússia. Hoje não
existem mais do que 100 espalhadas pelo
mundo e uma de suas mais novas
representantes é a Escola Lumiar, em São
Paulo, um projeto do empresário Ricardo Clóvis Bojikian, Helena Singer e Lilian Kelian, da
Semler. Lumiar: democracia desde pequeno
A Lumiar abrirá suas portas em fevereiro de 2003, para receber crianças ricas e carentes,
entre 4 e 6 anos de idade. Quem pode paga mensalidades que variam de R$ 480 (por seis
horas de aula) a R$ 960 (por doze horas). Quem não pode, espera ser 'adotado' por
empresários.
'Será uma escola bastante diferente e experimental', afirma Helena Singer, doutora em
sociologia e diretora de educação da Lumiar. Todas as regras serão definidas pelos alunos
e professores. Eles decidirão, por exemplo, como será gasto o dinheiro do orçamento ou a
quantidade de aulas a ser dada. Poderão escolher entre passar as horas trepados em uma
árvore, brincando com água ou navegando na internet. O princípio básico é o respeito à
liberdade e à democracia. O ritmo de aprendizado de cada aluno, sua curiosidade, a
exposição de idéias e as diferenças individuais são valorizadas. Nada é imposto. 'Se o
aluno souber definir as regras, terá responsabilidade para respeitá-las', aposta Helena.
Método pedagógico
Quem não trabalha com educação costuma ter
noções muito genéricas sobre os métodos de
ensino, um aspecto decisivo nesta hora. Os mais
comuns são o tradicional, o construtivista, o
montessoriano e o da pedagogia Waldorf. O
construtivista quer trabalhar a criatividade das
crianças, estimula o raciocínio e quer formar alunos
cheios de opinião. O tradicional privilegia a
quantidade de informações que os alunos recebem.
Veja, no box à pág. 47, uma descrição mais
detalhada. A disposição da escola em fornecer
dados sobre sua metodologia de trabalho, e do
modo mais claro possível, já é, aliás, um item com
peso positivo na escolha. 'A escola tem de saber
explicar aos pais leigos, sem o pedagoguês, qual é Na Graded School, as aulas são todas em inglês
a sua proposta', defende a professora Noely e a escola é americana até na arquitetura: para
Weffort, da Faculdade de Educação da PUC-SP. pais que querem os filhos em universidades do
exterior
Seja qual for o projeto apresentado, é importante pedir que o diretor ou o orientador da
escola dêem dicas práticas do que significa a proposta na rotina da escola. O que
acontece, por exemplo, se o aluno não fizer a lição de casa, ou com a criança que tem
ótimas notas e um péssimo comportamento. Também é preciso perguntar sobre o preparo
dos profissionais. 'Ter uma equipe de trabalho coesa, afinada com as práticas
pedagógicas, demora cerca de quatro anos e é caro', observa Noely Weffort. É necessário
custear professores em congressos, seminários, cursos de atualização, ter centro de
estudos e manter reuniões com eles, de preferência semanais. Se a escola tem
rotatividade de profissionais, dificilmente terá um grupo harmônico.
Com seu filho
Sua escolha, agora, já deve estar quase afinada. Falta considerar a opinião do principal
interessado: seu filho. 'A partir dos 2, 3 anos as crianças podem participar da escolha,
dizendo se gostam ou não do lugar, embora a palavra final seja dos pais', observa a
psicopedagoga Silvia Colello. A partir dos 7 anos a participação dos filhos é fundamental
porque eles já conseguem explicar por que gostam.
Volte então às escolas selecionadas na companhia do seu filho. Você poderá perceber
como as pessoas o consideram e, ao mesmo tempo, observar como ele reage ao
ambiente. A advogada Blanca Medeiros visitou três. Numa delas levou o filho Gabriel, de 2
anos. O menino pareceu sentir-se tão à vontade que já foi se entretendo, pegando os
brinquedos. 'Os funcionários também se mostraram muito atenciosos com ele', conta
Blanca. Foram os pontos derradeiros e decisivos na sua escolha.
Para perguntar antes de escolher
Questões Objetivo
Checar se a escola tem sua missão
Quais são os objetivos da escola?
na 'ponta da língua'.
Perceber o discurso na prática. A
escola pode exemplificar como
trabalha com a responsabilidade,
Como eles são alcançados na
exigindo que o aluno cuide de seus
prática?
objetos pessoais, que faça as lições
de casa e chegue pontualmente às
aulas.
Ver como a escola valoriza o
professor. Se prefere profissionais
Qual o critério da escola para pós-graduados, está seguindo
contratar os professores? Eles têm sugestão do Ministério da Educação.
graduação, mestrado ou Os orientadores educacionais ou
doutorado? Há coordenadores coordenadores pedagógicos têm
pedagógicos em todos os níveis? papel fundamental: acompanhar o
Qual o papel deles? desenvolvimento das atividades e
levar os professores a refletir sobre
a prática pedagógica.
Saber se a escola investe na
formação do seu corpo docente,
Como garantem a qualidade do
enviando profissionais para
trabalho desenvolvido em sala de
participar de cursos e congressos e
aula?
acompanhando seu trabalho, por
meio de reuniões individuais.
Saber se a avaliação do aluno, feita
por notas (0 a 10) ou conceitos (A,
B, C, D e E) leva em conta todas as
produções da criança: provas,
Como os alunos são avaliados?
trabalhos em grupo, lições de casa,
Quais os critérios?
participação em aula. Com isso, é
possível saber se a escola valoriza
mais o conteúdo ou o processo de
aprendizagem.
Saber como a instituição lida com
Qual a postura da escola se um imprevistos e limites. Se a escola
aluno morde, bate, toma a caneta permite ouvir os dois lados, respeita
do outro, e sobre questões como e acredita na capacidade de decisão
sair da escola durante o período do aluno frente suas atitudes e
de aulas? responsabilidades. Ou se tem uma
conduta mais imperativa e punitiva.
Como é diagnosticado o 'aluno- Perceber se a escola discute
problema' e como se lida com ele? internamente o comportamento e o
desempenho dos alunos,
identificando suas dificuldades. Se
chama os pais e lhes delega o
problema ou se os ajuda na busca
da solução.
Algumas instituições fomentam a
competição: separam os alunos em
classe por desempenho e dão bolsas
A escola publica as notas para que
de estudo aos melhores estudantes.
os alunos possam se situar
Outras valorizam aspectos do aluno
comparativamente aos demais? O
como raciocínio crítico, criatividade,
desempenho do aluno é premiado?
percepção e preocupação com o
outro, bem como sensibilidade para
situações especiais.
Saber a diretriz da escola com
relação ao preparo de seus alunos,
A partir do ensino fundamental,
se para o vestibular ou 'para a vida'.
quais as disciplinas com mais aulas
As escolas que oferecem matérias
por semana? Elas são as de maior
como filosofia, ética, psicologia,
importância para a formação do
teatro, música diversificam a
aluno?
formação e, em geral, não priorizam
o vestibular.
Perceber se a instituição assume a
dificuldade para si, se delega aos
Quando um aluno não está
pais ou faz uma parceria com a
conseguindo acompanhar o curso,
família para que consigam beneficiar
o que a escola propõe?
o aluno. Além disso, que recursos
de recuperação sugere.
Fonte: Questionário preparado para a CRESCER pela psicóloga Renata Rubano



Criada por: carol626 pontos . última modificação em: Domingo 19 de Agosto, 2007 11:37:24 BRT por carol626 pontos .

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