Governo bloqueia propostas inovadoras em educação, diz especialista

Governo bloqueia propostas inovadoras em educação, diz especialista

Karina Costa




"A escola democrática daria certo no Brasil se a estrutura fechada do Estado fosse quebrada. Há ainda um bloqueio do governo para o investimento em concepções inovadoras em educação", declarou o coordenador do Instituto Cultiva Brasil, Rudá Ricci, durante a 15ª Conferência Internacional de Educação Democrática (IDEC), que acontece entre os dias 8 e 16 de setembro, na cidade de Mogi das Cruzes (SP).

Segundo Ricci, a própria sociedade também contribui para essa estagnação. "Temos 30 mil conselhos de gestão participativa como o de assistência social, saúde e educação, todos representados por governantes e sociedade civil. Agora que a sociedade está no poder, é a primeira a ajudar a burocratizar, uma vez que não se comunica direito com a própria comunidade", criticou.

O especialista lembra ainda que o fato dos brasileiros terem uma opinião política ambivalente colabora para que o processo de discussão sobre educação democrática emperre. "Uma pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) mostra que 42% dos brasileiros não sabem se são a favor da democracia ou da ditadura, pois não sabem onde levam vantagem", lembra. "O desafio para colocar a escola democrática em pauta está em criar diálogo entre esse ideal de avanço na educação e a cultura política do país", acredita.

Mas Ricci destaca que, mesmo diante das dificuldades, já há algumas propostas avançadas no que diz respeito à escola democrática no Brasil. Entre elas, está a criação da rede de Escolas da Cidadania, no Brasil e na América Latina. O objetivo é formar líderes sociais a fim de aumentar sua capacidade de gestão autônoma e qualificar sua intervenção política. "Além disso, a Pastoral do Menor forma, nesse momento, jovens de Minas Gerais e Espírito Santo para que sejam mais tarde educadores populares de outros adolescentes. O Orçamento Participativo Criança também entrou em algumas escolas públicas de São Paulo para formar crianças como líderes sociais. Trinta escolas municipais do Chile também vão participar desse projeto", contou.

Diferentemente da experiência no Brasil, em Israel, a educação democrática tem expandido com a ajuda do governo. O fundador do Institute for Democratic Education, Yaacov Hecth, conta que já são 25 escolas democráticas no país, espalhadas em dez cidades. Todas elas públicas. "A escola democrática em Israel era questionada pelo governo e, aos poucos, tornou-se um modelo experimental. Hoje, temos a concessão e apoio deles para construir onde quisermos. Eles agiam contra nós e hoje nos pagam para isso", conta Hecth, lembrando que apesar de atingir apenas 0,5% dos estudantes do país, ganharam o prêmio de Escola do Ano de Israel.

Nas escolas democráticas do país, além dos alunos escolherem como e o que pretendem estudar, a instituição possui parlamento, assembléias coletivas, comitê judicial - tudo para que os estudantes sejam participantes ativos na escola e ajudem a governá-la. "A escola visa o aprendizado pluralístico e trabalha com os estudantes seu diferencial", explicou.

"Ao invés de começar logo pela manhã falando de Trigonometria ou História, muitas escolas começam o dia com trinta minutos de conversa com os alunos para saber mais sobre eles e suas relações familiares e na comunidade. Essa conexão é importante pois aproxima a tão distante relação entre professores e alunos", defendeu.

Hecth contou que uma pesquisa realizada em duas escolas comprovou a importância do momento de reflexão entre professores e alunos. "Em uma das escolas, os educadores priorizaram estudar Matemática, durante uma hora, logo pela manhã. Os professores da outra escola resolveram que a primeira hora do dia seria reservada para um momento de conversa e troca. Foi aplicado um teste da disciplina que identificou melhor desempenho entre os alunos do segundo grupo", lembrou.

O educador defende a educação democrática por acreditar que as pessoas são diferentes em relação aos seus interesses, personalidade e saberes. "Não podemos ver singularidade nelas e então empurrar o que queremos que saibam. Acho que esses testes que avaliam rendimento escolar só servem para formatar padrões de pessoas e para competirmos quem é melhor ou pior", criticou.

De acordo com Hetch, pessoas de todo o mundo migram para Israel em busca do modelo da escola democrática. O próximo passo a ser dado pelo Institute for Democratic Education é a criação de uma universidade democrática.


Criada por: helena1815 pontos . última modificação em: Quinta-feira 20 de Setembro, 2007 10:38:14 BRT por helena1815 pontos .

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