Que tipo de educação o Brasil quer

Que tipo de educação o Brasil quer?

O debate no encontro girou em torno da qualidade da Educação para além dos índices de reprovação

Meire Cavalcante, email:

O raciocínio dos palestrantes da 15ª Conferência de Educação Democrática se baseia numa questão essencial: se vivemos numa democracia, como esperamos que os alunos se tornem adultos preparados para ela sem propiciar a eles, logo cedo, na escola, a vivência democrática? O educador israelense Yaacov Hecth, do Institute for Democratic Education, disse em sua primeira apresentação que a educação vigente hoje tem que mudar. "Há anos tenho experiência de como acabar com a violência nas escolas fazendo valer a democracia", conta. Ele garante que, para isso, sempre busca descobrir o que há de melhor em cada aluno, incentiva que ele se desenvolva naquilo e cria oportunidades para que ele possa entregar o que tem de melhor à comunidade onde vive.
Yaacov contou que, certa vez, um grupo de atletas estava sem alojamento. Ele ofereceu o espaço de um prédio anexo à escola, com a condição de que ensinassem aos estudantes da escola onde atuava aquilo que sabiam fazer melhor. Para ele, o incentivo dos pontos fortes de cada um e a busca por pessoas da sociedade que tenham disposição de ensinar as crianças são dois pontos fortes da educação democrática. "Em dois anos não havia mais violência naquela unidade escolar e, mesmo assim, ela foi fechada", conta. O motivo? Os índices da escola nas avaliações externas não eram excelentes. "Contesto essas avaliações, que medem o desenvolvimento da criança de forma homogeneizada e pasteurizada, como se cada uma não tivesse seu progresso individual", afirma. "Não acredito numa avaliação que privilegia números, mesmo que o preço seja uma sociedade violenta e desumana", afirma. "Que objetivo existe em ensinar, quer dizer, ensinar o aluno a decorar, um conteúdo que nem eu mesmo conheço? Só para passar no exame e depois esquecer?", diz.

Anos após o fechamento da escola, Yaacov conta que seus ex-alunos o procuraram (bem-sucedidos em suas carreiras e ganhando dinheiro). Yaacov orgulha-se de ter colaborado para educar pessoas capazes de descobrir os próprios talentos e crescerem na vida de forma autônoma. Mas os ex-alunos não estavam lá só para matar saudades. "Eles se uniram e me ofereceram uma parceria, na qual entrariam com os recursos e eu, com a experiência, para implantarmos novas escolas democráticas no país", lembra.

Currículo e democracia
A professora Cecília Hanna Mate, da faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, disse que é preciso discutir a relação do professor com seu aluno. "Incomoda-me perceber que as formas de ensino em sala de aula reproduzem a maneira como fomos ensinados e formados como professores", afirma. Para exemplificar, ela pediau a todos que imaginassem a cena de uma criança brincando de escolinha. "Quem encarna o papel da professora está sempre à frente da turma, que está quieta e enfileirada, ouvindo a professora exigir silêncio com dedo em riste", descreve.

Para mudar o quadro estático de como a escola caminha (em tempos de rápidas mudanças), Cecília defende que ela precisa subverter algumas de suas regras. Uma delas, muito possível, é a organização do espaço e do tempo escolares. "Se a equipe concordar, por que não negociar os tempos das aulas, a junção de turmas ou a mudança do ambiente em que se dará a aula?", diz. "Do jeito que a escola se organiza, não existe espaço para o imponderável, o imprevisto. São 50 minutos, de uma disciplina tal, e pronto", afirma. Para trabalhar de forma diferenciada, no entanto, Cecília lembra que a escola precisa, minimamente, de uma direção que endosse e apoie essas mudanças e um corpo docente, em sua maioria, comprometido.

Mas de nada adianta subverter tudo se os alunos não aprendem. Para ela, é possível, sim, mudar a forma de como se ensina sem comprometer o conteúdo. "Os professores devem tomar cuidado com essa história de que o currículo oficial é engessado e não permite mudanças", afirma. "O currículo existe, mas a forma como trabalhamos com ele não é definida em lei. . "A autonomia da escola, lembro, está prevista na Lei de Diretrizes e Bases, de 1996."

publicação original: http://revistaescola.abril.com.br/online/cobertura/cobertura_250707.shtml



Criada por: helena1815 pontos . última modificação em: Quarta-feira 12 de Março, 2008 12:30:38 BRT por Eduardo164 pontos .

R. Dona Germaine Burchard, 511 (11) 3803-9805 secretaria@politeia.org.br