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Recreio sem fim
Recreio sem fim
Nada de horários nem de provas. Na Lumiar, os alunos decidem como irão aprender Rodrigo Brancatelli Três alunos munidos de canetinhas coloridas desenham uma árvore amarela com frutas roxas na parede recém-pintada da escola Lumiar, na Bela Vista. A professora observa a brincadeira e repreende as crianças: "Não, não, não! Canetinha é ruim, usem o giz de cera". No casarão da década de 1930 que abriga a sede da escola, não é estranho ver os professores rabiscando as paredes, brincando de pega-pega ou jogando Banco Imobiliário. A Lumiar é a primeira representante brasileira de um movimento mundial chamado de "escola democrática". Lá não existem salas de aula nem lição de casa, tampouco separação por faixa etária – as próprias crianças, de 2 a 12 anos, ditam as regras. Querem ter aula de kung fu ou russo? Pode. Fazer biscoitos e assistir a desenhos a tarde inteira? Pode também. Jogar videogame, molhar os colegas com uma mangueira e desenhar uma árvore amarela na parede? Tudo bem, ainda mais se for com o giz de cera. "De longe, parece uma grande bagunça, mas existe uma metodologia planejada por mais de três anos", diz a socióloga Helena Singer, diretora da escola. "Todas as atividades, mesmo as que parecem simples brincadeira, fazem parte da experiência do ensino." Financiada pelo empresário Ricardo Semler – que revolucionou sua empresa, a Semco, com uma gestão descentralizada e depois ganhou fama ao contar a experiência no best-seller Virando a Própria Mesa –, a instituição foi aberta em 2003 com vagas para 24 crianças. Hoje, tem o dobro de alunos. Para o segundo semestre, há planos de receber estudantes do ensino médio. "Nossa proposta é preparar as crianças para a vida", afirma Helena. "Elas se tornam responsáveis por suas escolhas." Assim que chega à escola, a criança é recebida por um educador. Ele será uma espécie de guia, responsável por acompanhar de perto o desenvolvimento de um grupo de, no máximo, doze alunos. As aulas propriamente ditas são ministradas por profissionais das mais diversas áreas – psicólogos, chefs de cozinha, atores, médicos, arqueólogos... Eles desenvolvem pequenos projetos interdisciplinares que duram três meses. Matemática, por exemplo, pode ser ensinada na cozinha, enquanto se mede a quantidade de fermento para fazer um bolo. A idéia de fazer uma "escola democrática" surgiu na década de 1920, na Inglaterra, com o Colégio Summerhill. Algumas experiências parecidas chegaram a ser aplicadas por aqui, mas nunca com a liberdade vista na Lumiar. As crianças são convidadas a participar até das assembléias trimestrais da escola. Na última discussão, decidiram mudar a cor das paredes para verde e contratar uma antropóloga especialista em cultura colombiana para dar aulas de espanhol. Outro pilar do projeto é a socialização dos estudantes. Cerca de 10% deles têm bolsa total e outros 60% ganham descontos – o restante paga mensalidade de 1.000 reais. Isso quer dizer que no mesmo grupo estão filhos de famílias de classe média alta e de representantes do movimento dos sem-teto. "Desde que as diretrizes do Ministério da Educação sejam seguidas, as instituições são livres para escolher qual método querem usar", afirma o educador Arlindo Queiroz, coordenador do MEC. "Mas um modelo alternativo precisa incitar o aluno a aprender. Nem toda metodologia inovadora é necessariamente boa." Os métodos da escola • Os alunos podem chegar e sair na hora em que quiserem. E só aparecem na escola se quiserem. • Eles devem participar de todas as decisões que envolvem a gestão do colégio. São os estudantes que decidem quando e como aprender. • Não há separação por série ou faixa etária. • A convivência entre crianças de classes sociais distintas é incentivada. Cerca de 70% dos alunos têm bolsa de estudo total ou parcial. • O educador que acompanha o desenvolvimento dos alunos é responsável por um grupo de, no máximo, doze deles. • Não há professores formais. As aulas são ministradas por chefs de cozinha, psicólogos, atores... publicação original: http://veja.abril.com.br/vejasp/200405/educacao.html veja também: http://www.midiaindependente.org/es/blue/2006/12/368309.shtml
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