República de Crianças: Sobre Experiências Escolares de Resistência
Apresentação de Yves de la Taille



De todas as inovações educacionais de que tivemos notícias durante o
século 20 – método Montessori, ensino programado, construtivismo etc. – as
chamadas escolas democráticas, nas quais os alunos criam as regras de convívio
e escolhem o que querem estudar, foram as que mais intrigaram, encantaram ou
assustaram. Entre elas, Summerhill é a mais famosa. Famosa, porém mal
conhecida: muitos pensam tratar-se de uma instituição criada por um lunático,
uma escola sem regras nem disciplina, onde se brinca em vez de se estudar,
enfim, uma experiência fantasiosa que, naturalmente, fracassou e morreu.
Ora, o livro de Helena Singer, República de crianças, não somente nos
relata que Summerhill ainda existe firme e forte, como também nos conta que
não foi a primeira experiência deste tipo (a primeira foi criada por ninguém
menos que o escritor russo Leon Tolstoi), nem a única: hoje contam-se quase
quinhentas escolas democráticas espalhadas pelo mundo.
Tais escolas têm um lugar de destaque no movimento pedagógico que,
desde o século passado (e, na verdade, inspiradas em idéias do século 18, as de
Rousseau), tem procurado se opor à escola dita tradicional, vista como espaço
da tirania adulta, como conservadora, desrespeitosa em relação às crianças e
totalmente ignorante dos reais processos psicológicos de aprendizagem e desenvolvimento.
O movimento da Escola Nova, como é chamado, mudou os
sinais: onde havia autoritarismo, haveria democracia, onde havia valores conservadores,
haveria os ideais de justiça baseados na igualdade e equidade, onde
havia desrespeito, haveria carinho e amor e, naturalmente, a ignorância quanto
às reais características da infância seria sanada com pesquisas psicológicas.


Foi neste contexto político pedagógico que autores como Jean Piaget
começaram a realizar investigações cujos resultados quase sempre referendaram
a visão otimista dos escolanovistas em relação à criança: com liberdade,
ela é capaz de desenvolver a capacidade de autogoverno, poupada do autoritarismo
adulto, de seus sermões e castigos, é capaz de alcançar a autonomia moral;
ao abrigo das tiranias curriculares, é capaz de organizar sua aprendizagem.
O movimento da Escola Nova teve traduções que eu chamaria “brandas”:
introduziram-se, em certas escolas, espaços para a gestão democrática da
instituição, alguma liberdade de escolha dos conteúdos pelos alunos e métodos
baseados na psicologia moderna. Porém, as experiências que melhor traduzem
o espírito escolanovista são as “radicais”, que não se limitaram a abrandar o
caráter hierárquico da escola tradicional, mas reformularam por inteiro sua
organização e objetivos. O livro de Helena Singer é justamente dedicado a essas
experiências. Seu texto, bem escrito e de leitura agradável, é bem-vindo entre
nós por pelo menos três motivos.
O primeiro: ele descreve com detalhes como realmente são essas instituições
e, assim, desfaz alguns mal-entendidos, sobretudo aquele que leva
alguns a acreditar que tais escolas deixam os alunos em estado de “semi-selvageria”
e que não preparam para a vida (Singer nos traz depoimentos de ex-alunos
que mostram exatamente o contrário). O segundo, ele aprecia criticamente essas
experiências a partir de fortes referencias teóricas (como Durkheim e Foucault),
defendendo a tese de que as “repúblicas de crianças” são muito mais do que
empreitadas de alguns iluminados, pois representam, cito, “um saber não
capturado pelo poder e, portanto, como uma possibilidade de resistência”.
A autora faz até um paralelo entre o movimento das escolas democráticas
com as revoluções culturais da década de 1960. Claramente simpática a movimentos
que, como queria Foucault, brigam com o poder naquilo que mais o
define e fortalece, a saber, a disciplina dos corpos e dos desejos, a autora escreve
para finalizar seu livro: “A prática apresenta-se como busca indefinida da
liberdade no campo da educação porque recusa o estatuto de verdade da
pedagogia que, em nome da supremacia do conhecimento, desenvolve técnicas
de aprendizado que visam o treinamento de corpos mais dóceis e eficientes”.
O terceiro motivo que recomenda a leitura de “República de Crianças”
é sua contribuição para a salutar discussão brasileira atual em torno do papel da
escola na formação ética dos alunos. A autora não trata desta questão. Todavia
quando nos convida a pensar sobre valores como liberdade, justiça, respeito e
 )1.67208)2/0171)-)6205
suas concretizações em escolas radicalmente diferentes das “oficiais”, ela nos
leva a refletir sobre o cuidado necessário para que, pelas mãos deste poder difuso
analisado por Foucault e encarnado pelas instituições hierárquicas (como o são
as brasileiras), esses valores não acabem servindo de pretexto para disciplinar
as almas e os desejos em vez de inspirarem condutas.
Yves de la Taille
Professor do Instituto de Psicologia da USP



Criada por: helena1815 pontos . última modificação em: Segunda-feira 24 de Maio, 2010 16:43:58 BRT por helena1815 pontos .

R. Dona Germaine Burchard, 511 (11) 3803-9805 secretaria@politeia.org.br