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WILHELM REICH, A CRIANÇA ENTRE ROUSSEAU E FREUD
Zeca Sampaio José Gustavo Sampaio Garcia. Mestre em Educação. Doutorando em Educação pela FeUSP. Professor da Universidade Santa Cecília. Este trabalho tem por objetivo traçar um quadro preliminar da concepção de criança na teoria reichiana, a partir de uma busca em seus próprios escritos, ao mesmo tempo, confrontando suas idéias com alguns elementos das diversas concepções de criança através da história humana. Para este confronto será utilizado o quadro dialético entre a tradição rousseauniana e a tradição do modernismo expressa mais claramente na teoria freudiana. Singer (1997) aponta esta contradição entre a posição de Rousseau, a qual se assenta em uma visão positiva quanto à natureza da criança, e a posição da educação da cultura moderna que tenta impor à criança uma nova natureza. Ela ressalta a crítica de Foucault a esta educação disciplinadora, que procura domar o corpo tornando-o submisso. Vamos encontrar também em Reich uma crítica explícita a esta educação disciplinadora que impede as manifestações mais importantes da vida. Em busca de uma compreensão do funcionamento humano Reich inicia sua busca por uma compreensão do ser humano a partir de seus estudos na faculdade de medicina, mas em especial quando ingressa nas fileiras da psicanálise, tornando-se discípulo de Freud. Esta adesão ao pensamento freudiano lhe permite conciliar elementos aparentemente contraditórios de sua formação que precisarão ser sintetizados para que surja a sua visão de homem e, com ela, sua concepção de criança. Durante seus estudos na faculdade de medicina, Reich experimenta o conflito entre as explicações mecanicistas e vitalistas para a vida. Reich (1975a, p. 30) mesmo se define, em seu tempo de estudante de medicina, como um mecanicista de pensamento “ultra-sistemático”. Por outro lado, passa a se interessar pelos escritos de Bergson e se torna um grande admirador de seu pensamento. Mecanicismo e vitalismo vão se tornar para ele os representantes maiores da crise que se estabelece na ciência, especialmente em sua busca de compreensão do funcionamento vital. “A questão, ‘O que é a Vida?’ Estava por trás de tudo o que aprendia” (Reich, apud Sharaf, 1983, p. 55). O interesse por Bergson e por uma visão menos determinista, menos cientificista da vida parece estar em contradição com a formação científica do jovem médico. Mas é exatamente esta visão composta por dois pares antitéticos que traz em si o germe de onde brotará o pensamento reichiano. Para que estes elementos embrionários do pensamento reichiano possam ser desenvolvidos faz-se necessário que ele encontre um ambiente metodológico capaz de satisfazer tanto a sua necessidade de um método sistemático e verificável, isto é, que seja científico, como a sua busca por uma abordagem capaz de compreender o fenômeno vivo, com sua parcela de indeterminação e unicidade. E é nesse contexto de crise, entre a tradição mecanicista, positivista da ciência natural de sua formação em medicina e o questionamento filosófico ao determinismo de Bergson, que Reich encontra Freud e seus escritos. A personalidade simples e direta do criador da psicanálise encanta o jovem Reich. Mas, é a atitude experimental, científica, baseada na observação, formulação de hipóteses e teste dessas hipóteses através de novas observações, juntamente com uma teoria da sexualidade com uma visão mais profunda e mais abrangente, considerando a sexualidade para além do papel da reprodução, que fazem com que ele resolva se dedicar ao estudo da psicanálise. A posição da psicanálise no contexto das ciências que estudam o homem é bastante estratégica. Alguns autores como Japiassu a classificam em uma posição oposta a das psicologias de inspiração positivista, já dentro da fenomenologia ela é muitas vezes criticada como uma abordagem determinista, na medida em que busca as causas históricas inconscientes do comportamento humano. Figueiredo (1991, p. 27) divide em duas grandes tendências as matrizes do pensamento psicológico, a cientificista e a romântica: - De um lado se situam aqueles que procuram seguir o modelo das ciências naturais. Buscam a quantificação, os modelos mecanicistas, “classificações e leis gerais de caráter predicativo”. - De outro, aqueles que acreditam que por ser o objeto das ciências humanas um objeto diferente do objeto das ciências naturais, faz-se necessário o desenvolvimento de uma metodologia própria compatível com este objeto. Mais adiante, acaba por situar a psicanálise em ambas as matrizes já que vê nela um aspecto “determinista funcional” que a coloca ao lado das teorias funcionalistas de caráter cientificista (1991, ps. 95-100), ao mesmo tempo em que a inclui entre as matrizes compreensivas de influência romântica, por seu aspecto interpretativo (1991, ps. 167-169). Esta característica intermediária, ou, no dizer de Figueiredo (1991, p. 99) “esta terra de ninguém epistemológica em que (a psicanálise) se originou”, entre a objetividade determinista e a intersubjetividade humanista, pode ter sido um motivo importante para a adesão de Reich às suas fileiras. Entendo esta “terra de ninguém” como a descrição do fato de que Freud inaugura um território novo para a compreensão do homem. É uma época em que a oposição entre uma psicologia científica nascente, de paradigma cientificista, positivista e uma psicologia de tradição introspectiva, com raízes na filosofia caracteriza o debate em torno do que é o homem. A primeira via o homem como absolutamente determinado por processos biológicos internos, ou por seu aprendizado de comportamentos, que nega a existência e a possibilidade da liberdade humana. Lembre-se aqui de Skinner. A segunda via o homem como consciência autodeterminada, não dependente de processos biológicos, capaz de decidir a partir de suas próprias determinações, ou no dizer de Sartre, seu próprio projeto, tendo a liberdade como valor fundamental. É só lembrarmos do próprio Sartre e, mais tarde, um Rogers. A descoberta do inconsciente por parte de Freud relativiza esta segunda posição ao afirmar a existência de motivações para a ação e decisão humanas que estão fora do campo da consciência. Por outro lado, a proposta de um Ego intermediador entre as pulsões instintuais e a realidade exterior, contrariam a idéia de um determinismo absoluto. De qualquer forma, a proposta de uma metodologia apropriada para se compreender os elementos determináveis da subjetividade humana, sem cair em um mecanicismo positivista tendente a um determinismo absoluto ofereceu a Reich um campo seguro para os passos iniciais de seu desenvolvimento. A visão de homem em Freud atrai o jovem Reich que encontra em seus escritos uma forte ressonância com suas próprias concepções, muito embora estas, mais do que fruto de reflexão rigorosa, sejam ainda bastante intuitivas. Mas, neste mesmo momento (o início da década de vinte) Freud está alterando sua visão de homem ao mudar a concepção de instinto sexual como fonte única da energia psíquica para a oposição Pulsão de morte e Eros, hipótese apresentada por ele em Além do princípio do prazer em 1920, o mesmo ano em que Reich ingressa na Associação Psicanalítica. Reich se encontra, então, em um dilema. No pensamento de Freud que tanto o atraíra ele encontrava uma visão de homem otimista, na qual as forças centrais do funcionamento psíquico estavam relacionadas com o prazer, a sexualidade e a vida. Os princípios do prazer e da realidade que compunham a primeira idéia de conflito em Freud não eram de maneira nenhuma inconciliáveis. Os principais obstáculos para a possibilidade de um funcionamento saudável e, portanto, mais feliz do homem se encontravam na repressão excessiva às pulsões sexuais. Mas agora, seu mestre apresentava uma nova visão de homem, mais pessimista, reflexo talvez de suas próprias desilusões (Cf. Reich, 1975a, p. 188). Freud agora falava em duas grandes forças pulsionais, uma dirigida à vida e ao amor (Eros) e outra dirigida à desagregação, destruição e morte (Thanathos). Dois princípios inconciliáveis de natureza biológica, o que levava a idéia de conflito inevitável. Idéia esta que se tornou emblema da visão de homem freudiana e determinou uma influência decisiva sobre as formulações para a educação que procuravam embasamento na psicanálise. A princípio Reich não se dispõe a contrariar seu mestre, muito embora não encontre na hipótese da pulsão de morte uma explicação muito convincente. Do ponto de vista técnico-terapêutico, não via motivos para a construção de tal hipótese. Do ponto de vista teórico a hipótese lhe parecia improvável uma vez que para a pulsão sexual Freud havia identificado uma energia específica, a libido, enquanto que para a pulsão de morte não era possível se falar em uma energia própria a ela. Reich seguiu suas pesquisas sobre o funcionamento humano, onde era central a questão da sexualidade e da potência orgástica(2) . De um lado ele constata que a neurose, ou pelo menos as condições básicas para o surgimento desta — a saber, a incapacidade para a descarga energética sexual saudável —, está presente em uma grande maioria da população. “Não podia haver mais nenhuma dúvida de que o povo se tornava neurótico em larga escala” (Reich, 1975a, p. 172). Passa a pensar a neurose, ou melhor, a impotência orgástica como uma doença social, uma epidemia. Por outro lado, não vê esta generalização dos problemas causados pela repressão sexual como uma prova de sua origem biológica, como querem alguns psicanalistas baseados na teoria da inevitabilidade do conflito em Freud. Para Reich esta posição dos psicanalistas seria uma biologização de um mal que é na verdade de natureza social, adquirido pelo indivíduo em sua experiência em um mundo que não aceita as manifestações instintuais básicas da infância. Três elementos confirmam sua hipótese: - Seus pacientes que atingem um nível satisfatório de saúde demonstram que é possível uma boa economia energética sexual; - Sua convivência com jovens em seu trabalho social que pertencem a classes mais baixas onde a repressão à sexualidade é menos estruturada lhe permite observá-los e constatar que eles têm uma regulação energética sexual mais saudável que os membros da classe média e alta que atende em consultório; - E, finalmente, alguns trabalhos etnográficos — especialmente o trabalho de Malinowski (1983) — que apontam para a existência de culturas onde a repressão sexual não está presente, e onde a neurose também não, demonstrando os indivíduos destes povos um caráter muito mais amigável, aberto e franco, de uma pureza ética e sociabilidade espontânea não encontrada em povos vizinhos que tem uma vida sexual muito mais reprimida (Cf. Reich, 1971, p. 28-37). Em 1932, Reich publica um estudo de caso sobre o masoquismo no qual acredita ter provado a não validade da hipótese da pulsão de morte de Freud. Reich (1972, p. 225) afirma: Pela primeira vez na história da patologia sexual foi provado, com base em investigação clínica que: 1) O fenômeno usado para justificar a hipótese da teoria da pulsão de morte pode ser seguido até uma forma específica de angústia orgástica(3) . 2) O masoquismo não é uma pulsão determinada biologicamente; ao contrário ele é uma pulsão secundária(4) no sentido que lhe dá a economia sexual, isto é, o resultado de uma repressão de mecanismos sexuais naturais. 3) Não existe um desejo biológico de desprazer; portanto, não existe uma pulsão de morte. Reich entende que se a pulsão auto-destrutiva, que vinha sendo definida como masoquismo primário, podia ser, através do trabalho analítico, convertida em outros tipos de pulsão, a saber, agressividade em defesa da vida e amor frustrado, não poderia se tratar de uma pulsão primária, de natureza biológica. A pulsão sexual primária, constituída pelo amor ao pai não podia ser transformada. Apenas podia ser mudado o seu objeto, do pai para outro parceiro mais adequado. Porém, a sua característica de amor e desejo genital não podia ser alterada. Tratava-se, portanto, de uma pulsão primária, isto é, biológica. Quanto à pulsão de morte, ou pulsão destrutiva, o dito masoquismo primário, só podia se tratar de uma pulsão secundária, isto é, uma pulsão formada a partir de uma experiência conflituosa entre uma pulsão primária e a realidade frustradora. No caso se tratava de uma composição da agressividade, culpa, amor frustrado, angústia orgástica na forma de medo de explodir. O desejo de desprazer aparecia como uma maneira de aliviar-se de forma substituta. O trabalho com o masoquismo dá a Reich a segurança necessária para sustentar a sua posição contra a hipótese de uma pulsão primária de morte. Mas, também o coloca em confronto direto com as posições assumidas por Freud. O debate que se dá então assume um caráter mais político do que teórico, uma vez que, segundo Reich, Freud e os psicanalistas acreditam que ele sustenta esta posição devido a suas afiliações com o partido comunista. De qualquer forma esta diferença, juntamente com outras de caráter técnico, vão acabar por definir o afastamento de Reich das fileiras da psicanálise em 1934. Surge a preocupação com a criança Todo este debate acaba por acentuar a preocupação de Reich para com a criança. Se até então a criança lhe interessava muito mais por suas manifestações tardias no homem, isto é, se o seu interesse (assim como o interesse de Freud) era muito mais ligado ao infantil no homem, a partir deste momento Reich começa a perceber a importância de conhecermos o funcionamento da criança para que possamos compreender o seu desenvolvimento. “A criança recém-nascida, assim, passa a ocupar, naturalmente o centro da medicina preventiva e da educação” (Reich, 1982, p. 226). O que está em jogo é se a criança nasce e se desenvolve de acordo com um funcionamento natural em direção à vida, ao crescimento e ao amor, ou se ela já traz consigo um funcionamento destrutivo que precisa ser disciplinado pela educação. Para Reich, cada vez mais é claro que é justamente esta educação repressora, baseada em uma moral compulsória e na renúncia à satisfação pulsional que faz surgirem as pulsões destrutivas e anti-sociais. Esta diferente concepção do mundo pulsional da criança por parte de Reich — mais de acordo com o primeiro Freud e absolutamente em desacordo com a hipótese de uma pulsão de morte primária — está no verdadeiro cerne de sua concepção de criança. Para Reich a destrutividade humana, assim como a repressão sexual, é um fato social e não biológico. Portanto, a criança pode se desenvolver livre da neurose, desde que se encontre uma outra forma de educar as novas gerações. Uma simples, mas tenaz, interpretação errônea da natureza governa toda a educação e a filosofia cultural. É a idéia de que natureza e cultura são incompatíveis. A partir desta ideologia ‘cultural’, os psicanalistas tem falhado em distinguir entre pulsões naturais primárias e pulsões secundárias cruéis e perversas, e continuamente matam a natureza do recém-nascido enquanto tentam extinguir o ‘pequeno animal selvagem’. Eles são perfeitamente ignorantes ao fato de que é exatamente este assassinato do princípio natural que produz a natureza secundária, perversa e cruel, a assim chamada ‘natureza humana’, e de que estas criações artificiais por seu lado, tornam necessário o moralismo compulsivo e as leis brutais (Reich, 1983, p. 20-1). A concepção de criança como sendo naturalmente “boa”, isto é, como tendo um funcionamento pulsional ligado à vida, no qual as direções de desenvolvimento apontam para o crescimento, o amor e a auto-regulação, que vemos em Reich se insere dentro de uma tradição rousseauniana, a qual aponta os males que as distorções de nossa cultura trazem à criança que cresce sob sua influência. Esta visão de tradição Rousseauniana pode ser resumida pela afirmação de Rousseau: “Ponhamos como máxima incontestável que os primeiros movimentos da natureza são sempre retos: não existe perversidade original no coração humano” (Rousseau, 1995, p. 78). Este alinhamento com as idéias de Rousseau aparece também na admiração que Reich demonstra pelo funcionamento saudável dos selvagens, especialmente aqueles que se encontram sob o regime matriarcal como os Trobriandeses descritos por Malinowski. Mas Reich tem consciência de que não se trata de um retorno no tempo: Não há espaço aqui para romantismo barato. Ele precisa ser substituído pela luta por uma organização humana em um grau tecnológico mais alto, uma estrutura que nunca se permita esquecer o processo de humanização. Esta nova organização irá retificar o desenvolvimento errôneo de muitos milhares de anos e nos permitir observar o quadro de um colonizador luxurioso, obeso e brutal, ele mesmo uma vítima de nossa cultura vergonhosa, que é um verdadeiro pesadelo. (Reich, 1976, P. 130). Reich percebe uma distorção em nossa cultura que precisa ser ultrapassada para que possamos desenvolver uma sociedade melhor. Esta distorção se caracteriza exatamente por um afastamento do funcionamento natural. A partir deste afastamento a sociedade cada vez mais necessita de uma educação repressora, que procure minimizar os males criados por este afastamento. Mas a própria repressão aumenta o funcionamento distorcido e, portanto, exige mais repressão. Faz-se necessária uma mudança de direção. Reich critica severamente esta biologização de uma formação repressora que é característica de nossa cultura. Para ele esta é uma concepção que não se sustenta já que examina-se a história da repressão sexual e verifica-se que esta não se manifesta no início do desenvolvimento cultural, que portanto não constitui o pressuposto da formação da cultura mas só começa a formar-se relativamente tarde, com a propriedade privada dos meios de produção e o início da divisão de classes (Reich, 1974, p. 31). Assim, a contraposição entre cultura e natureza é uma produção cultural específica e não o “destino da humanidade”. A educação, enquanto mediadora do processo simbólico, tem papel fundamental na manutenção desta ideologia. Dentro do pensamento reichiano teria papel fundamental também na formação de uma nova visão da relação instinto e civilização. ... a filosofia da cultura freudiana pretende que as coisas se passam assim para a própria ‘cultura’; fica-se céptico e pergunta-se por que razão então o onanismo das crianças ou o acto sexual entre púberes perturbaria a construção de postos de gasolina ou o fabrico de aviões. Pressente-se que isso é exigido, não pela actividade cultural em si, mas pelas formas actuais dessa actividade, e fica-se de bom grado disposto a sacrificar as formas se por essa maneira pudesse ser eliminada a imensa miséria das crianças e dos jovens (Reich, 1974, p. 30-1). Crianças do futuro Vemos então que Reich, a partir de uma matriz de pensamento freudiana, mas também influenciado de maneira definitiva por Bergson (Albertini, p. 91-92), acaba por desenvolver uma concepção de criança muito mais dentro da tradição rousseauniana. Nesta concepção de criança está clara a crítica a uma visão de criança desenvolvida, segundo Ariès (1978), durante a modernidade, a partir de uma tradição cristã de condenação do corpo e da sexualidade. Esta tradição moderna vê a criança como um pequeno animal selvagem que precisa ser domado, disciplinado, para que possa se tornar verdadeiramente um homem, um cidadão desta sociedade. Reich aponta então para a necessidade de aprendermos mais sobre o funcionamento natural desta criança, já que a maioria dos estudos que temos, relacionados ao tema do funcionamento infantil, tem como objeto de estudo a criança educada dentro desta cultura, portanto a criança cuja estrutura pulsional já se encontra distorcida. Da criança saudável e de seu funcionamento natural temos apenas alguns relances dos quais podemos extrair alguns princípios. De qualquer forma conhecemos muito pouco do que seria o desenvolvimento de crianças criadas de acordo com o seu funcionamento natural auto-regulado. No final de sua vida, Reich propõe a criação de um instituto de pesquisa com o objetivo de estudar crianças saudáveis desde o nascimento e até antes, em seu desenvolvimento fetal. Sabe que dentro do ambiente cultural em que se encontra este será um projeto que encontrará dificuldades muito grandes. Ainda assim, propõe que comecemos um movimento na direção da saúde que só poderá se concretizar após o trabalho de muitas gerações. Nós sabemos que são principalmente as influências socioeconômicas (a estrutura familiar, as idéias culturais sobre natureza versus cultura, exigências da civilização, religião mística, etc.) que reproduzem a couraça em cada geração de crianças recém-nascidas. Estes infantes, quando crescidos, forçarão suas próprias crianças ao encouraçamento, a menos que a corrente seja quebrada em algum lugar, algum dia (Reich, 1973, p. 288). A concepção de criança em Wilhelm Reich é uma concepção construída através de sua preocupação com a saúde humana, assim como através de uma atitude constante de preocupação epistemológica científica. Ela se confronta diretamente com a concepção freudiana ao apontar para uma criança que tem em seu cerne um funcionamento natural “positivo”, não necessariamente contraditório à cultura e à civilização. Ao contrário, para Reich, a cultura é parte integrante da natureza humana. Não há nenhuma contradição básica entre cultura e as pulsões primárias já que são estas que fornecem a energia e a força para que o homem construa a civilização. É, acima de tudo, uma visão otimista que acredita que este momento histórico (de milhares de anos) em que a estrutura pulsional humana se encontra distorcida é apenas um passo no crescimento humano. A criança do futuro é, para ele, uma criança mais saudável, mais auto-regulada, mais capaz de viver em sociedade e de construir cultura. “Há esperança de que pouco a pouco uma consciência geral da Vida se desenvolva nesse novo tipo de criança, difundindo-se por toda a comunidade humana” (Reich, 1982, p. 9). Pelo menos, se as gerações atuais fizerem sua parte na procura por uma melhor compreensão do funcionamento da criança. (2)A potência orgástica foi um conceito forjado por Reich para definir a capacidade do indivíduo de ter descargas sexuais orgásticas com certa regularidade. Reich definiu também o que entendia por orgasmo. Estes dois conceitos foram apresentados por Reich em seu livro Genitality: In the theory and therapy of neurosis. Early writings, volume two, publicado em 1927 com o nome de Die Funktion des Orgasmus, do qual há tradução para o português com o nome de Psicopatologia e sociologia da vida sexual, o qual não deve ser confundido com A função do orgasmo, com título igual no original, publicado em 1942. (3)A angústia orgástica foi descrita por Reich como a última etapa terapêutica antes do restabelecimento da potência orgástica. Refere-se a uma forte sensação de angústia, muitas vezes disfarçada em uma pulsão específica, no caso o masoquismo (desejo de desprazer) cujo sentido é o medo das convulsões espontâneas presentes no orgasmo (N.A.). (4)Em itálico no original. Ver discussão de pulsões primárias e secundárias a seguir (N.A.). Bibliografia ALBERTINI, Paulo. Reich: história das idéias e formulações para a educação. São Paulo: Ágora, 1994. ARIÉS, Philippe. História social da criança e da família. Trad. Dora Flaksman. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. BERGSON, Henry. A Evolução criadora. Trad. 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